[Livro] Dois Irmãos - Milton Hatoum

Provavelmente um dos maiores escritores em nosso país, ainda vivo. Milton Hatoum é um amazonense que usou seu estado para desenhar uma das histórias mais interessantes e mais triste de nossa literatura contemporânea. 



Sinopse: "Dois Irmãos" é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. É a história de dois irmãos gêmeos - Yaqub e Omar - e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino - o filho da empregada - narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar. Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance.



Dois irmãos gêmeos, descendentes de libaneses que nasceram em Manaus - Omar e Yaqub. Idênticos por fora, mas por dentro dotados de um abismo de semelhanças traçam a trama dessa história.

Omar, o caçula, nasceu com diversos problemas de saúde e por isso, quando a divergência apareceu entre eles (por um fato que não contarei aqui porque é spoiler) a mãe resolveu mandar Yaqub para o Líbano, a fim de apaziguar as coisas em casa. 

Bem, o afastamento do irmão só aumentou o abismo de diferenças e colocou o mais velho em uma posição que ninguém pareceu entender por muitos anos, mas que deu origem a diversos traços importantes em sua personalidade.

Esquerda: HQ que ainda não tive oportunidade de ler.
Direita: Edição nova que está muito confortável de ler.

Yaqub se tornou independente e ambicioso. Logo que voltou para o Brasil deu um jeito de ir embora e mudou-se para São Paulo, enquanto o caçula se entregava a vida boa dos "prazeres da carne" sem se preocupar com o futuro. 

O resto você vai ter que descobrir ao ler porque é tudo tão delicioso que não me atrevo contar. O livro é poético em um nível deslumbrante. Cada frase dele parece um desenho. A obra toda é muito fácil de ler e a própria trama te carrega até o final. Todos os personagens, repito: TODOS, são muito bem desenvolvidos. É impossível não se identificar com ao menos um deles. 

É um livro bom demais para ser deixado na estante. Se você (assim como eu) o guarda para depois, o passe na frente das outras leituras ainda hoje! (rs) 

Ps: Eu sei que tem uma série da Rede Globo baseada nessa obra, mas não assisti e nem sei onde encontrá-la, por isso não falei nada sobre ela. Quem souber algo, comenta aí.

[Conto] A Morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói


Eu acho que é conto (quase novela), mas já vi, em diversos lugares, leitores se referindo a essa obra como um livro. Tem pouco mais de 70 páginas de pura agonia, mesmo assim, para mim, é conto!






Meu exemplar tem a pior capa do planeta. Horrorosa, desconexa com a história e com três seres que não sei explicar de que espécie são, mas o conteúdo, meus amigos, esse é poderoso. 





Essa foi minha primeira leitura do aclamadíssimo Liev Tolstoi e pude entender porque a paixão ao redor desse escritor russo. Sua narrativa é visceral. É algo que toca a alma da gente. Impressionante como ele pode chacoalhar seu mundo em apenas 70 páginas! 

Aqui, temos a história de Ivan, um funcionário público medíocre que se casa com a mulher de sua vida, mas vê essa relação ir para o espaço por conta das dificuldades. Revoltado com essa situação, Ivan se empenha e consegue, finalmente, vencer na vida, mas de nada adianta. 

Passamos a acompanhar seus últimos dias de vida com colegas de trabalho e uma família que não dão a mínima importância para ele, mas que se aproveitam de sua posição privilegiada na sociedade. Isso até que ele sofre um acidente e passa a agonizar na cama. Já sabendo que seu fim é a morte, passa a refletir sobre tudo. 

Isso não é spoiler nenhum porque o livro começa em seu velório. Acontece que o interessante dessa obra é acompanhar Ivan durante sua jornada rumo à morte. O final, o autor já dá no título e certamente isso é o menos importante em todo o conto. 

Suas reflexões sobre a vida e a morta. Pensamentos insanos que Ivan tem, reações instintivas e remorsos recheiam as páginas dessa história que é pura agonia e não te deixa relaxar um minuto sequer.



Bem, aprendi a lição, Tolstói precisa ser lido "de cabo a rabo" e é isso que farei.


[Livro] O Colecionador - Jhon Fowles

Livro incrível que me surpreendeu demais. Não foi o que eu esperava após ter lido tantas resenhas (isso sempre atrapalha), mas o que encontrei aqui é ainda melhor e é uma obra que serviu de base para outras que gostei muito, então valeu a pena me doar à essa história. 





Sinopse: “O Colecionador" é a história de Frederick Clegg, um homem solitário com um plano para conquistar o grande amor de sua vida. "O Colecionador" também é a história de Miranda Gray, sequestrada por um maníaco que acha que pode obrigá-la a se apaixonar por ele. Dois narradores antagônicos, sequestrador e vítima, brilham no romance de John Fowles. 









Um rapaz se apaixona por uma garota, mas sua personalidade, um tanto peculiar, o impede de se aproximar dela. As primeiras páginas contam muito bem o tipo de pessoa que ele é. 

Acontece que ele é um psicopata e sente essa necessidade de possuí-la e assim talvez a faça amá-lo. Veja bem, não encare esse "possuí-la" como algo sexual, o que o rapaz quer, na verdade, é ter essa garota para ele como um objeto maravilhoso, como um pássaro na gaiola ou talvez como uma obra de arte presa a parede. Para isso ele a sequestra. Ah, ele diz o tempo todo que ela é sua hospede! (rá, sei!). 

Essa história pode não parecer muito original, talvez você já tenha lido aí ao menos dois livros que falam disso, mas, acreditem, essa obra foi a primeira que trouxe esse tema, exposto desse jeito, para a literatura e todas as outras podem (ou não) ter se baseado nessa para nascer. 

O livro é narrado em primeira pessoa, mas dividido em duas partes. Na primeira parte é Frederick quem expõe os fatos. Sua obsessão fica evidente e, por incrível que pareça, sua inferioridade diante dela também. Em determinados momentos da história você chega a sentir pena dele. Ele mostra o quanto ela é forte e decidida. Inteligente acima da média, chega a ser esnobe e, diversas vezes, até manipuladora. 

Na segunda parte a coisa muda de figura e é Miranda quem passa a narrar os fatos de seu próprio sequestro. É aqui que a obra te dá o petardo. Só digo uma coisa: É muito mais completa e bizarra! 

Eu não quero falar mais nada, principalmente sobre essa segunda parte, porque é interessante você se deixar guiar pela narrativa de ambos. Achei muito intrigante o paradoxo das personalidades de ambos quando narrado através dos outros do outro e de si mesmo. Como uma pessoa pode ser diferente aos olhos de cada observador. Isso é algo que grudou em minha cabeça e não consigo parar de pensar no assunto. 

Obras que beberam dessa fonte 

Jhon Fowles pode ter sido lido por alguns escritores do gênero e pode ter inspirado outras histórias igualmente fantásticas. Pode ser que exista outras, mas aqui quero citar duas que me marcaram e que gostei demais: 


Misery (Louca Obsessão) - Stephen King 
Sim, eu acho que o mestre leu esse livro para criar uma de suas melhores histórias. A trama não é exatamente igual ao "Colecionador", mas tem similaridades incríveis. De qualquer forma vale a pena ler as duas porque não seguem o mesmo rumo e o final é absolutamente diferente.  



Dias Perfeitos - Raphael Montes
Essa eu tenho certeza que veio direto da fonte. Parece até uma releitura. Obviamente possui algumas diferenças estruturais, mas a base toda está lá. Uma ressalva que quero fazer é que em "Dias Perfeitos" as coisas são muito mais bizarras! Recomendo demais a leitura. Aliás, recomendo o autor e toda sua bibliografia.
Tem resenha desse livro AQUI. Confira. 



E é isso. Não é porque um escritor se inspirou em outra obra que seu livro deve ser descartado. Não sendo uma cópia e possuindo pontos específicos só faz a coisa toda mais interessante. Um dia farei um post sobre obras que não são tão "novidades" como nós pensamos ser, mas ainda sim são ótimas. 


Uma pequena ressalva: A DarkSide relançou esse livro recentemente com uma capa de “cair o queixo”. Eu li na versão antiga (deu o maior trabalho para achar), mas fiquei encantada com o trabalho da Editora para essa nova edição. O livro parece um quadro!!! Quero demais.



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