[Conto] Sara anda mais bonita - Valéria Martins


No Halloween de 2014 falei sobre histórias contadas em duas frases (Leia aqui). Fiquei impressionada com a profundidade que poucas palavras poderiam trazer para o leitor, sendo que a maior parte da história se passava dentro da minha cabeça, com imagens que eu mesma criei, porque, escrito ali na minha frente, muito pouco era dito.

E se duas frases podem me contar uma história completa o que não dizer sobre contos? Alguns são bem grandes, possuem umas 40 páginas, outros, bem pequenos como esse que vim resenhar hoje.


"Sara anda mais bonita", é contado não por ela, mas pela amiga dela que a observa de longe e a nota cada dia mais bonita. Sim, o segredo de beleza é muito interessante, mas devo confessar não é o melhor da história. Nessas poucas páginas, cheias de tensão sexual e frases instigantes, a perseguição e admiração da amiga é que nos fazem grudar na história.



A forma com que amiga observa Sara e a descreve, faz com que seja impossível o leitor não se interessar pelo segredo de sua jovialidade. Mas não posso contar mais nada, a história é mesmo pequena e quando você menos espera, já acabou.

Essa foi a minha primeira leitura de 2017 e ganhou logo cinco estrelas, mas antes de terminar a resenha, preciso contar uma coisa:



No ano passado (2016) minha primeira leitura também foi um livro dessa mesma escritora - Valéria Martins - chamado "A matéria dos sonhos" e ganhou 5 estrelas também. Tomara que eu não tenha que esperar mais um ano para ler algo novo dela, porque sei que é satisfação garantida.

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A formação de um leitor profundo

Eu não sabia bem como nomear o tipo de leitor que eu gostaria de discutir aqui. Pensei em chamá-lo de "leitor clássico", mas sendo bem sincera, que pessoa lê APENAS livros considerados clássicos? A verdade é que a demanda de obras, nos últimos tempos, têm sido avassaladora e chega às livrarias aos montes - por dia. Impossível escapar de um contemporâneo ou outro.

E ao contrário do que dizem os críticos, nem todos são ruins. O problema dos livros contemporâneos é que pertencem a escritores que estão trilhando seus primeiros passos ainda e estes apresentam falhas, assim como nossos imortais já apresentaram um dia.

Pelo menos, em minha cabeça, é essa a diferença. Veja bem, temos hoje Cesar Bravo - um escritor incrível que está arrastando multidões de leitores por onde passa - mas que ainda não foi considerado um escritor clássico. Raphael Montes é outro exemplo e estou aqui nomeando apenas os que escrevem um determinado gênero (terror/Suspense). Então, se o que diferencia um Cesar Bravo de um Stephen King é apenas o tempo, não devemos criticar leitores que se rendem aos contemporâneos. 

Mas é inegável o quanto um clássico tem a nos dizer. Eles parecem mais profundos, mais encorpados e é deles que eu quero falar. O que torna um leitor mais profundo? Quais clássicos tornam sua bagagem realmente considerável? Você está no caminho certo em suas escolhas?

Alguns escritores são imprescindíveis para quem deseja se tornar um leitor respeitado: Vitor Hugo, Tolstoy, Dostoiévski, Thomas Man, Kafka, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Cervantes, Shakespeare, Alexandre Dumas, Gogol, Mia Couto, José de Alencar e mais um milhão de exemplos, mas são somente estes? Obvio que não. 

Eu descobri, estes dias, que para cada clássico que eu leio, mais três títulos são acrescentados à minha lista, ou seja, eu jamais chegarei ao final e, acredite, essa é a melhor parte!

[Conto] A VIÚVA DO AGIOTA

Eu tenho a honra de trazer à vocês, quase com exclusividade, um conto premiado, escrito pela Carla Ceres, que ganhou como o melhor conto de Piracicaba no 9º Pêmio Escriba de Contos, realizado este ano (2016). Ele tem tudo a ver com nosso mês do Halloween e por isso, aqui está:


A viúva do agiota



Parecia desrespeito ir ao asilo, importunar a viúva do agiota, mas Fernando precisava do empréstimo por um motivo nobre. Não tinha cabimento um jovem belo, forte e de futuro (sim, alguém como ele) não ter futuro nenhum por falta de dinheiro. Precisava aparentar o sucesso almejado antes de obtê-lo. Dinheiro atrai dinheiro. Negócios da China só aparecem para quem tem ou parece ter posses, não é?

Dona Rosália chegou sorridente. Usava um vestido discreto, mas caro. De seu braço pendia uma bolsa de verniz preto, combinando com os sapatos. Estava pronta para ir à missa. Escutou Fernando atentamente. Por fim, estabeleceu as condições para conceder-lhe o empréstimo. O rapaz ficou pensativo.

- Fechamos negócio então? - perguntou a velhinha, bebericando seu chá.

- A senhora não me leve a mal, por favor... eu sei que seu falecido marido era um grande... um grande...

- Banqueiro informal

- Isso! Banqueiro informal. Seu marido foi um grande banqueiro informal, mas nem ele cobraria esses 10% a mais.

- De fato. Com a morte do meu marido os custos operacionais no ramo de empréstimos subiram um pouco. O senhor veja: meu marido era um homem forte, que podia resolver certas pendências pessoalmente. Quanto a mim, mesmo sabendo atirar, prefiro confiar em profissionais. Minha vista anda fraca e eu poderia, sem querer, alvejar alguém de sua família. Seria uma pena. Aceita um biscoitinho de gengibre?

- Não, obrigado. Quer dizer que esses 10% são para algum sujeito atirar em mim?

- De jeito nenhum! Eu só contrato especialistas em artes marciais e armas brancas. Para algum reles sujeito atirar no senhor, bastaria muito menos.

- Entendo. Então acho que prefiro um não-especialista.

- Um não-especialista!? Prefere um amador!? O senhor é quem sabe. Admiro sua coragem, sua confiança de que poderá me pagar toda a quantia no dia combinado, impreterivelmente.

- Eu vou pagar.

- Claro que vai. Qualquer um pagaria se soubesse que tem um psicopata sádico no seu encalço. É pagar e rezar.

- Rezar pra quê?

- Pra que o amador não pegue seu dinheiro e, ainda assim, resolva fazer picadinho com o senhor, por diversão.

- A senhora está me assustando.


- Estou sendo honesta. Pense nos 10% como um seguro de vida. O senhor será visitado em domicílio, por um profissional bem vestido, dirigindo um veículo de porta-malas confortável.

- Por mim ele poderia vir de ônibus.

- Imagina! Aos melhores, o melhor. Um profissional estressado, com baixa autoestima poderia quebrar mais que seus dedos. Além disso, ônibus urbanos não têm porta-malas. O senhor não iria querer ser levado pro cativeiro amarrado no para-choque, não é?

- Cativeiro?

- Apenas até sua família quitar a dívida. Seu chá esfriou.

- A senhora acaba de me dar uma ideia. Parece que seria mais fácil eu sequestrar a senhora.

- Parece é?

- Seus filhos pagariam o que eu pedisse.

- Então vamos - disse a viúva, levantando-se e ajeitando o vestido.

- Pra onde? - perguntou Fernando, estupefato.

- Pro cativeiro.

Dona Rosália pegou a bolsa e virou-se para o espelho como quem verifica o penteado. Quando voltou a encarar Fernando, a agiota segurava uma pequena pistola negra, fosca e elegante, combinando perfeitamente com a bolsa de ir à missa.

Fernando saltou, derrubando a cadeira e fugiu. Dona Rosália, fiel aos ensinamentos do marido, foi até a janela e atirou. “Nunca saque uma arma se não estiver pronta pra usá-la”, dizia o falecido.

O tiro pegou de raspão. Dona Rosália desistiu da missa. Mandou a secretária marcar consulta urgente com o oftalmologista.
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