A formação de um leitor profundo

Eu não sabia bem como nomear o tipo de leitor que eu gostaria de discutir aqui. Pensei em chamá-lo de "leitor clássico", mas sendo bem sincera, que pessoa lê APENAS livros considerados clássicos? A verdade é que a demanda de obras, nos últimos tempos, têm sido avassaladora e chega às livrarias aos montes - por dia. Impossível escapar de um contemporâneo ou outro.

E ao contrário do que dizem os críticos, nem todos são ruins. O problema dos livros contemporâneos é que pertencem a escritores que estão trilhando seus primeiros passos ainda e estes apresentam falhas, assim como nossos imortais já apresentaram um dia.

Pelo menos, em minha cabeça, é essa a diferença. Veja bem, temos hoje Cesar Bravo - um escritor incrível que está arrastando multidões de leitores por onde passa - mas que ainda não foi considerado um escritor clássico. Raphael Montes é outro exemplo e estou aqui nomeando apenas os que escrevem um determinado gênero (terror/Suspense). Então, se o que diferencia um Cesar Bravo de um Stephen King é apenas o tempo, não devemos criticar leitores que se rendem aos contemporâneos. 

Mas é inegável o quanto um clássico tem a nos dizer. Eles parecem mais profundos, mais encorpados e é deles que eu quero falar. O que torna um leitor mais profundo? Quais clássicos tornam sua bagagem realmente considerável? Você está no caminho certo em suas escolhas?

Alguns escritores são imprescindíveis para quem deseja se tornar um leitor respeitado: Vitor Hugo, Tolstoy, Dostoiévski, Thomas Man, Kafka, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Cervantes, Shakespeare, Alexandre Dumas, Gogol, Mia Couto, José de Alencar e mais um milhão de exemplos, mas são somente estes? Obvio que não. 

Eu descobri, estes dias, que para cada clássico que eu leio, mais três títulos são acrescentados à minha lista, ou seja, eu jamais chegarei ao final e, acredite, essa é a melhor parte!

[Conto] A VIÚVA DO AGIOTA

Eu tenho a honra de trazer à vocês, quase com exclusividade, um conto premiado, escrito pela Carla Ceres, que ganhou como o melhor conto de Piracicaba no 9º Pêmio Escriba de Contos, realizado este ano (2016). Ele tem tudo a ver com nosso mês do Halloween e por isso, aqui está:


A viúva do agiota



Parecia desrespeito ir ao asilo, importunar a viúva do agiota, mas Fernando precisava do empréstimo por um motivo nobre. Não tinha cabimento um jovem belo, forte e de futuro (sim, alguém como ele) não ter futuro nenhum por falta de dinheiro. Precisava aparentar o sucesso almejado antes de obtê-lo. Dinheiro atrai dinheiro. Negócios da China só aparecem para quem tem ou parece ter posses, não é?

Dona Rosália chegou sorridente. Usava um vestido discreto, mas caro. De seu braço pendia uma bolsa de verniz preto, combinando com os sapatos. Estava pronta para ir à missa. Escutou Fernando atentamente. Por fim, estabeleceu as condições para conceder-lhe o empréstimo. O rapaz ficou pensativo.

- Fechamos negócio então? - perguntou a velhinha, bebericando seu chá.

- A senhora não me leve a mal, por favor... eu sei que seu falecido marido era um grande... um grande...

- Banqueiro informal

- Isso! Banqueiro informal. Seu marido foi um grande banqueiro informal, mas nem ele cobraria esses 10% a mais.

- De fato. Com a morte do meu marido os custos operacionais no ramo de empréstimos subiram um pouco. O senhor veja: meu marido era um homem forte, que podia resolver certas pendências pessoalmente. Quanto a mim, mesmo sabendo atirar, prefiro confiar em profissionais. Minha vista anda fraca e eu poderia, sem querer, alvejar alguém de sua família. Seria uma pena. Aceita um biscoitinho de gengibre?

- Não, obrigado. Quer dizer que esses 10% são para algum sujeito atirar em mim?

- De jeito nenhum! Eu só contrato especialistas em artes marciais e armas brancas. Para algum reles sujeito atirar no senhor, bastaria muito menos.

- Entendo. Então acho que prefiro um não-especialista.

- Um não-especialista!? Prefere um amador!? O senhor é quem sabe. Admiro sua coragem, sua confiança de que poderá me pagar toda a quantia no dia combinado, impreterivelmente.

- Eu vou pagar.

- Claro que vai. Qualquer um pagaria se soubesse que tem um psicopata sádico no seu encalço. É pagar e rezar.

- Rezar pra quê?

- Pra que o amador não pegue seu dinheiro e, ainda assim, resolva fazer picadinho com o senhor, por diversão.

- A senhora está me assustando.


- Estou sendo honesta. Pense nos 10% como um seguro de vida. O senhor será visitado em domicílio, por um profissional bem vestido, dirigindo um veículo de porta-malas confortável.

- Por mim ele poderia vir de ônibus.

- Imagina! Aos melhores, o melhor. Um profissional estressado, com baixa autoestima poderia quebrar mais que seus dedos. Além disso, ônibus urbanos não têm porta-malas. O senhor não iria querer ser levado pro cativeiro amarrado no para-choque, não é?

- Cativeiro?

- Apenas até sua família quitar a dívida. Seu chá esfriou.

- A senhora acaba de me dar uma ideia. Parece que seria mais fácil eu sequestrar a senhora.

- Parece é?

- Seus filhos pagariam o que eu pedisse.

- Então vamos - disse a viúva, levantando-se e ajeitando o vestido.

- Pra onde? - perguntou Fernando, estupefato.

- Pro cativeiro.

Dona Rosália pegou a bolsa e virou-se para o espelho como quem verifica o penteado. Quando voltou a encarar Fernando, a agiota segurava uma pequena pistola negra, fosca e elegante, combinando perfeitamente com a bolsa de ir à missa.

Fernando saltou, derrubando a cadeira e fugiu. Dona Rosália, fiel aos ensinamentos do marido, foi até a janela e atirou. “Nunca saque uma arma se não estiver pronta pra usá-la”, dizia o falecido.

O tiro pegou de raspão. Dona Rosália desistiu da missa. Mandou a secretária marcar consulta urgente com o oftalmologista.

[Livro] Salem - Stephen King

Obvio que não iria faltar meu escritor preferido no nosso #MêsDoHalloween!

Só mesmo o Stephen King, para começar um livro pelo final sem dar Spoiler algum e quando o leitor chega à última página, corre para o começo porque tudo se encaixa só ali, na última linha da introdução.

Sinopse: Ambientado na cidadezinha de Jerusalem's Lot, na Nova Inglaterra, o romance conta a história de três forasteiros. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a acertar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Senhor Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade. Após a chegada desses forasteiros, fatos inexplicáveis vêm perturbar a rotina provinciana de Jerusalem's Lot: uma criança é encontrada morta; habitantes começam a desaparecer sem deixar vestígios ou sucumbem a uma estranha doença. A morte passa a envolver a pequena cidade com seu toque maléfico e Ben e Mark são obrigados a escolher o único caminho que resta aos sobreviventes da praga: fugir. Mas isso não será tão simples, os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem's Lot estão agora para sempre interligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas. 

Classificação
5*
Editora: Suma
Skoob

Esse foi o segundo livro que Stephen King escreveu na vida, lá em 1975. Nem dá para acreditar que o cara já tenha começado tão bem em sua carreira. Tudo bem que, quando você lê mais de 10 obras dele, percebe alguma diferença na escrita, mas isso aqui é genial demais para ser de um escritor principiante e só reforça o que sempre pensei: Stephen King já nasceu gênio e veio para esse mundo "prontinho da Silva".

Essa história começa realmente pelo final, com o fim da pequena cidade Jerusalem's Lot já sendo de conhecimento geral sua tragédia. E nas primeiras páginas você se sente completamente perdido, porque parece mesmo que está perdendo alguma coisa, mas calma, tudo se ajeita. King não te deixa muito tempo no escuro quando retrocede algum tempo e lhe mostra o panorama completo da trama.

E veja só, aqui temos outro escritor. Aliás, o primeiro escritor da carreira de King em suas obras. Veremos muito dessa profissão em suas histórias. Aqui, Ben Mears está de volta à sua cidade natal, pronto para resolver pendencias do passado que o deixou atormentado até então.

Ben está pronto para escrever um romance, baseado no seu medo de criança, aliás, o medo da maioria daquelas pessoas: A famosa Mansão Marsten, palco do mais aterrorizante boato de todos os tempos - Seu ultimo morador foi encontrado morto, enforcado em seu próprio quarto. Circunstancias suspeitas rodeiam essa morte e Ben sabe muito bem disso.

Ele espera, na verdade, superar esse trauma e seguir em frente, mas o que encontra é algo um pouco mais profundo. Logo de início tenta alugar a tal casa, que passou todos estes anos vazia, mas descobre que pouquíssimos dias antes, ela fora alugada para um homem que também está chegando à cidade com a intenção de abrir uma loja de antiguidades.

Como se trata de uma pequena cidade do interior, os boatos voam e logo toda a população está de orelhas em pé e olhos voltados tanto para a loja nova, quanto para os proprietários misteriosos da mansão, mas também para o Ben, o escritor - quase famoso - que passa a perambular pelas ruas.

E é aí que tudo muda drasticamente. Assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, sumiços de crianças e também de alguns mortos no necrotério se tornam comuns e o cenário vai ficando cada segundo mais assustador.


Lançado originalmente aqui no Brasil como o nome de A hora do Vampiro e com essa capa horrenda:

Salem foi resgatado pela Suma e acabou ganhando capa nova e voltou para seu nome original - que eu considero bem melhor - mas que, por anos, me fez pensar que esse livro se tratava de uma história sobre bruxas. Qual foi minha surpresa, descobrir que aqui, lidamos com o melhor tipo de vampiro que se pode existir. O tipo mal, perverso e sem sentimento algum. A criatura apavorante que todos temem e não algo sedutor e irresistível. (ps: aqui ele não brilha, juro).

Eu não vejo problema nessa gama de tipos de vampiros. Gosto da versatilidade que essa criatura recebeu na literatura, só quero ressaltar que aqui ele é daquele tipo clássico, que a maioria prefere.

Esse livro é instigante do começo ao fim. Os personagens são muito bem construídos e você sente empatia por vários no decorrer da história. Bem, se tratando de um livro do King, inevitavelmente, você irá chorar por alguma morte e eu senti várias aqui.

Os personagens do King parecem mesmo ter um vasto passado e é isso que dá a eles tanta profundidade. Um dia falo melhor disso aqui no blog, quero ler mais obras do autor para essa analise. Mas voltando a história: VAMPIROS! Como poderia dar errado? A melhor criatura da ficção, escrita pelo melhor escritor de terror?

É um livro impecável, com críticas bem feitas, assim como em todas as suas outras obras. Como sempre ele pega no pé da religião e também dos costumes das pessoas que vivem em cidades pequenas.

Em resumo, Salem é quase uma "boia salva-vidas" no mar de tantas ficções mal feitas que existem atualmente nas livrarias. É quase confortador poder sentir medo dessas criaturas noturnas, que não tem pretensão alguma além de matar. É um refresco para quem gosta de terror ao mesmo em tempo que um deleite para os que amam, acima de tudo, uma história muito bem contada.

Leiam!
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