Um dos livros mais assustadores que li esse ano e olha que nem é obra de suspense. Penso que distopias me assustam mais do que terror hoje em dia, porque parecem tão reais e próximas de se tornarem realidade!
Sinopse: Imagine uma época em que os livros configurem uma ameaça ao sistema, uma sociedade onde eles são proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros - profissionais que outrora se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando publicações e impedindo que o conhecimento se dissemine como praga. Para coroar a alienação em que vive essa nova sociedade, as casas são dotadas de televisores que ocupam paredes inteiras de cômodos, e exibem "famílias" com as quais se pode dialogar, como se estas fossem de fatos reais. Este é o cenário em que vive Guy Montag, bombeiro que atravessa séria crise ideológica. Sua esposa passa o dia entretida com seus "parentes televisivos", enquanto ele trabalha arduamente. Sua vida vazia é transformada quando ele conhece a vizinha Clarisse, uma adolescente que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo. O sumiço misterioso de Clarisse leva Montag a se rebelar contra a política estabelecida, e ele passa a esconder livros em sua própria casa. Denunciado por sua ousadia, é obrigado a mudar de tática e a buscar aliados na luta pela preservação do pensamento e da memória.
A história é bem simples e foi resumida muito bem nessa sinopse, então agora vamos falar da escrita do autor. Aliás, pretensão minha querer tecer alguma crítica a um dos mestres da ficção científica, certo? Ray Bradbury arrasta multidões de fãs pelo mundo e essa obra é seu grande destaque (em minha opinião).
Ray Bradbury
Sua forma de descrever as coisas, mesmo as mais assustadoras, é tão poética que encanta e faz o leitor reler parágrafos de forma sistemática. Fiz inúmeras marcações em um livro de 200 páginas!
Aliado a isso temos a construção dos personagens que é bem bacana também. Montag e Clarisse possuem poucas conversas no começo do livro, mas são incríveis, ao ponto de te fazer parar a leitura por alguns segundos para pensar e absorver tudo aquilo.
Agora o ponto alto do livro foram mesmo as críticas à sociedade e o motivo pelo qual os livros começaram a ser queimados e proibidos. É algo tão contemporâneo que diversas vezes ergui os olhos do livro para contemplar, com dor no coração, minha própria biblioteca. Como se fosse possível que, algum dia, alguém pudesse entrar ali e queimar tudo. É angustiante.
É um livro que você não consegue passar dois dias lendo. 24 horas é mais do que suficiente. É difícil parar. Como já disse, tem menos de 200 páginas e a trama vai te arrastando sem que possa perceber. Sei que ficção científica não é muito “minha praia”, mas a escrita de Ray Bradbury é, portanto quem sabe não me arrisco mais vezes no gênero, né?! Acho que vale a pena.
Agora sobre o filme.
A adaptação de 1966, dirigida por Truffaut é simplesmente péssima (rs). Me desculpem os fãs do cineasta, mas não consegui chegar ao final do filme. É muito ruim em um nível assustador. De qualquer forma, muitas coisas foram mudadas e não consegui engolir, de forma alguma, essas mudanças e muito menos as interpretações. A trilha sonora é bizarra também! #Medo
Novidade!
A grande novidade é que esse ano (2018) será lançado outra adaptação, agora com direção de Ramin Bahrani, o qual não conheço absolutamente nada, mas que conta com um elenco bem bacana. #Oremos
Ficamos na torcida, né? Uma obra tão importante e tão profunda merece uma adaptação à altura.
Acontece que falar de literatura é o que eu mais gosto de fazer mesmo, então resolvi resgatar esse cantinho que já me trouxe tanto benefício. Certo, sem enrolação, vamos ao que interessa: Livros!
Tenho em torno de 60 resenhas atrasadas para postar;
Devo ter assistido umas 15 séries diferentes desde a última que indiquei aqui;
Aproximadamente 300 filmes foram consumidos sem moderação;
E um número incalculável de reflexões, literárias ou não, foram produzidas em meu cérebro durante esse período de abstinência bloguística! (sim, já voltei inventando palavras).
Mas por onde começar? Bem, durante esse tempo não fiquei parada e criei alguns projetos de leitura e é daí que partirei. Vou compartilhar com vocês o que ando lendo e como venho escolhendo minhas próximas leituras e depois recomeço com as resenhas.
Projeto #LendoOQueTenho
Ano passado reformei toda minha biblioteca e disso aqui:
Fui para isso aqui:
Então percebi que tinha livros incríveis estacionados em minha estante e resolvi movimentá-los. Preciso admitir que encontrei coisas ali que eu nem sabia que tinha comprado ou recebido e tive belas surpresas.
Quem se interessar pelo projeto, estou publicando fotos e pequenos comentários a cada obra que consumo lá no Facebook em um álbum especial – CLIQUE AQUI
Projeto #LivrosBasicosParaUmLeitorCompleto
Esse foi pura audácia minha mesmo!
Sempre vejo listas essenciais em vários sites importantes e até grandes escritores já ditaram para nós o que acham que seria imprescindível ser lido por quem leva a literatura a sério.
Acontece que eu resolvi criar minha própria lista de livros que eu acho obrigatória para todo leitor. Obvio que coloquei algumas obras de gêneros que, geralmente, são ignorados.
Portanto, sim, temos terror/suspense aqui. Ah, está em ordem alfabética e possui, atualmente, 94 títulos. Chegarei aos 100 em breve.
==A, B==
Auto da Barca do Inferno, O - Gil Vicente
Apanhador no Campo de Centeio, O - Jerome David Salinger
Alice no país das Maravilhas - Lewis Carrol
Bebê de Rosemary, O - Ira Levin
==C==
Colecionador, O - John Fowles
Corcunda de Notre Dame, O - Vitor Hugo
Cem anos de Solidão - Gabriel García Marquez
Cortiço, O – Aluízio Azevedo
Conde de Monte Cristo - Alexandre Dumas
Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski
==D==
Duplo. O - Fiodor Dostoiévski
Dom Quixote - Cervantes
Dom Casmurro - Machado de Assis
Doutor Fausto - Thomas Mahnm
Divina Comédia - Dante Alighieri
Drácula - Bram Stoker
Diário de anne Frank - Anne Frank
==E==
Eneida - Publio Virgilio Maronis
Evangelho Segundo Jesus Cristo, O - Saramago
E o Vento levou - Margaret Mitchell
Estudo em vermelho, Um - Arthur Conan Doyle
Em Busca do Tempo Perdido - Marcel Proust
Édipo Rei - Sófocles
==F==
Fausto - Johann Wolfgang von Goethe
Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
Frankenstein - Mary shelley
==G==
Grande Gatsby, O - F. Scott Fitzgerald
Gente Pobre - Fiodor Dostoiévski
Guerra e Paz - Liev Tolstói
Grandes Sertões Veredas - João Guimarães Rosa
Guarani, O - José de Alencar
==H==
Homem Duplicado - José Saramago
Hamlet - Willian Shakespeare
Hobit, O - J. R. R. Tolkien
Harry Potter - J. K. Rowling
==I==
Ilíada - Homero
Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski
Iracema - José de Alencar
Iluminado, O - Stephen King
==J, K, L==
Laranja Mecânica - Anthony Bur
Lolita - Vladimir Nabokov
==M==
Montanha Mágica, A - Thomas Maham
Moby Dick - Herman Melville
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Morro dos Ventos Uivantes, O - Emily Bronte
Memórias de um Sargento de Milícias – Manuel Antônio de Almeida
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Macbeth - Willian Shakespeare
Metamorfose - Franz Kafka
Médico e o Monstro, O - Robert Louis Stevenson
Miseráveis, Os - Victor Hugo
==N, O==
Odisseia - Homero
Oceano no fim do caminho - Neil Gaiman
==P==
Príncipe, O - Maquiavel
Poderoso Chefão, O - Mario Puzo
Psicose - Robert Bloch
Primo Basílio, O - Eça de Queirós
Processo - Franz Kafka
Porque ler os Clássicos - Ítalo Calvino
==Q, R==
Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
Revolução dos Bichos - George Orwell
Ratos - Gordon Reece
==S==
Sofrimentos do Jovem Werther, Os - Johann Wolfgang von Goethe
Sangue Frio, A - Truman Capote
Senhor dos Anéis - J. R. R. Tolkien
Senhor das Moscas - William Golding
Sagarana - João Guimarães Rosa
Sol também se levanta - Ernest Hemingway
Sandman - Neil Gaiman
Senhora - José de Alencar
Sobre a Escrita - Stephen King
==T==
Tempo e o Vento, O - Érico Veríssimo
Terra Sonâmbula - Mia Couto
Três mosqueteiros - Alexandre Dumas
Trabalhadores do Mar - Victor hugo
==U==
Ulisses - James Joyce
==V==
Volta do parafuso, A - Henry James
Velho e o mar, O - Ernest Hemingway
Visconde partido ao meio - Ítalo Calvino
Vinhas da Ira, As - John Steinbeck
==W,X,Y,Z==
==Número==
1984 - George Orwell
Lista dos ganhadores do Prêmio Nobel da Literatura
Essa é uma meta para a vida. Obviamente que não vou terminar antes de morrer, portanto espero que eu possa acumular 9 encarnações nessa aqui. Isso porque não peguei dos anos 200 para cá e sim desde a criação do tal prêmio que foi exatamente em 1901! Rá!
2017 - Kazuo Ishiguro (Reino Unido)
2016 - Bob Dylan (EUA)
2015 - Svetlana Alexievich (Bielorrússia)
2014 - Patrick Modiano (França)
2013 - Alice Munro (Canadá)
2012 - Mo Yan (China)
2011 - Tomas Transtroemer (Suécia)
2010 - Mario Vargas Llosa (Peru)
2009 - Herta Müller (Alemanha)
2008 - Jean-Marie Gustave Le Clezio (França)
2007 - Doris Lessing (Reino Unido)
2006 - Orhan Pamuk (Turquia)
2005 - Harold Pinter (Reino Unido)
2004 - Elfriede Jelinek (Áustria)
2003 - J.M. Coetzee (África do Sul)
2002 - Imre Kertesz (Hungria)
2001 - V.S. Naipaul (Reino Unido)
2000 - Gao Xingjian (França)
1999 - Günter Grass (Alemanha)
1998 - José Saramago (Portugal)
1997 - Dario Fo (Itália)
1996 - Wislawa Szymborska (Polónia)
1995 - Seamus Heaney (Irlanda)
1994 - Kenzaburo Oe (Japão)
1993 - Toni Morrison (EUA)
1992 - Derek Walcott (Santa Lucia)
1991 - Nadine Gordimer (África do Sul)
1990 - Octavio Paz (México)
1989 - Camilo José Cela (Espanha)
1988 - Naguib Mahfouz (Egito)
1987 - Joseph Brodsky (EUA)
1986 - Wole Soyinka (Nigéria)
1985 - Claude Simon (França)
1984 - Jaroslav Seifert (Checoslováquia)
1983 - William Golding (Reino Unidos)
1982 - Gabriel García Márquez (Colômbia)
1981 - Elias Canetti (Bulgária/Reino Unido)
1980 - Czeslaw Milosz (Polónia)
1979 - Odysseus Elytis (Grécia)
1978 - Isaac Bashevis Singer (EUA)
1977 - Vicente Aleixandre (Espanha)
1976 - Saul Bellow (EUA)
1975 - Eugenio Montale (Itália)
1974 (1) - Eyvind Johnson (Suécia)
1974 (2) - Harry Martinson (Suécia)
1973 - Patrick White (Austrália)
1972 - Heinrich Böll (Alemanha)
1971 - Pablo Neruda (Chile)
1970 - Aleksandr Isayevich Solzhenitsyn (Rússia)
1969 - Samuel Beckett (Irlanda)
1968 - Yasunari Kawabata (Japão)
1967 - Miguel Angel Asturias (Guatemala)
1966 (1) - Shmuel Yosef Agnon (Israel)
1966 (2) - Nelly Sachs (Alemanha)
1965 - Mikhail Aleksandrovich Sholokhov (Rússia)
1964 - Jean-Paul Sartre (França)
1963 - Giorgos Seferis (Grécia)
1962 - John Steinbeck (EUA)
1961 - Ivo Andric (Jugoslávia)
1960 - Saint-John Perse (França)
1959 - Salvatore Quasimodo (Itália)
1958 - Boris Leonidovich Pasternak (Rússia)
1957 - Albert Camus (França)
1956 - Juan Ramón Jiménez (Espanha)
1955 - Halldór Kiljan Laxness (Islândia)
1954 - Ernest Miller Hemingway (EUA)
1953 - Sir Winston Leonard Spencer Churchill (Reino Unido)
1952 - François Mauriac (França)
1951 - Pär Fabian Lagerkvist (Suécia)
1950 - Earl (Bertrand Arthur William) Russell (Reino Unido)
1949 - William Faulkner (EUA)
1948 - Thomas Stearns Eliot (Reino Unido)
1947 - André Paul Guillaume Gide (França)
1946 - Hermann Hesse (Alemanha)
1945 - Gabriela Mistral (Chile)
1944 - Johannes Vilhelm Jensen (Dinamarca)
1940-43 - Não foi atribuído
1939 - Frans Eemil Sillanpää (Finlândia)
1938 - Pearl Buck (EUA)
1937 - Roger Martin du Gard (França)
1936 - Eugene Gladstone O'Neill (EUA)
1935 - Não foi atribuído
1934 - Luigi Pirandello (Itália)
1933 - Ivan Alekseyevich Bunin (Rússia)
1932 - John Galsworthy (Reino Unido)
1931 - Erik Axel Karlfeldt (Suécia)
1930 - Sinclair Lewis (Estados Unidos da América)
1929 - Thomas Mann (Alemanha)
1928 - Sigrid Undset (Noruega)
1927 - Henri Bergson (França)
1926 - Grazia Deledda (Itália)
1925 - George Bernard Shaw (Irlanda)
1924 - Wladyslaw Stanislaw Reymont (Polónia)
1923 - William Butler Yeats (Irlanda)
1922 - Jacinto Benavente (Espanha)
1921 - Anatole France (França)
1920 - Knut Pedersen Hamsun (Noruega)
1919 - Carl Friedrich Georg Spitteler (Suíça)
1918 - Não foi atribuído
1917 (1) - Karl Adolph Gjellerup (Dinamarca)
1917 (2) - Henrik Pontoppidan (Dinamarca)
1916 - Carl Gustaf Verner von Heidenstam (Suécia)
1915 - Romain Rolland (França)
1914 - Não foi atribuído
1913 - Rabindranath Tagore (Índia)
1912 - Gerhart Johann Robert Hauptmann (Alemanha)
1911 - Maurice Maeterlinck (Bélgica)
1910 - Paul Johann Ludwig Heyse (Alemanha)
1909 - Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf (Suécia)
1908 - Rudolf Christoph Eucken (Alemanha)
1907 - Rudyard Kipling (Reino Unido)
1906 - Giosuè Carducci (Itália)
1905 - Henryk Sienkiewicz (Polónia)
1904 (1) - Frédéric Mistral (França) =/=
1904 (2) - José Echegaray y Eizaguirre (Espanha)
1903 - Bjørnstjerne Martinus Bjørnson (Noruega)
1902 - Christian Matthias Theodor Mommsen (Alemanha)
1901 - Sully Prudhomme (França)
Obviamente que não tenho prazo para terminar isso. Essas listas são apenas uma direção para que eu não me desvie do caminho certo da literatura e me perca em livros de vampiros sanguinários e atraentes...
Espero contar com alguns de vocês nessa empreitada. Para ficar sempre por dentro, aqui estão minhas redes sociais. Me siga, me acompanhe, comente!
No Halloween de 2014 falei sobre histórias contadas em duas frases (Leia aqui). Fiquei impressionada com a profundidade que poucas palavras poderiam trazer para o leitor, sendo que a maior parte da história se passava dentro da minha cabeça, com imagens que eu mesma criei, porque, escrito ali na minha frente, muito pouco era dito.
E se duas frases podem me contar uma história completa o que não dizer sobre contos? Alguns são bem grandes, possuem umas 40 páginas, outros, bem pequenos como esse que vim resenhar hoje.
"Sara anda mais bonita", é contado não por ela, mas pela amiga dela que a observa de longe e a nota cada dia mais bonita. Sim, o segredo de beleza é muito interessante, mas devo confessar não é o melhor da história. Nessas poucas páginas, cheias de tensão sexual e frases instigantes, a perseguição e admiração da amiga é que nos fazem grudar na história.
A forma com que amiga observa Sara e a descreve, faz com que seja impossível o leitor não se interessar pelo segredo de sua jovialidade. Mas não posso contar mais nada, a história é mesmo pequena e quando você menos espera, já acabou.
Essa foi a minha primeira leitura de 2017 e ganhou logo cinco estrelas, mas antes de terminar a resenha, preciso contar uma coisa:
No ano passado (2016) minha primeira leitura também foi um livro dessa mesma escritora - Valéria Martins - chamado "A matéria dos sonhos" e ganhou 5 estrelas também. Tomara que eu não tenha que esperar mais um ano para ler algo novo dela, porque sei que é satisfação garantida.
Se interessou? Compre seu conto AQUI no site da Editora 7Letras! É baratinho e vale cada palavra!
Eu não sabia bem como nomear o tipo de leitor que eu gostaria de discutir aqui. Pensei em chamá-lo de "leitor clássico", mas sendo bem sincera, que pessoa lê APENAS livros considerados clássicos? A verdade é que a demanda de obras, nos últimos tempos, têm sido avassaladora e chega às livrarias aos montes - por dia. Impossível escapar de um contemporâneo ou outro.
E ao contrário do que dizem os críticos, nem todos são ruins. O problema dos livros contemporâneos é que pertencem a escritores que estão trilhando seus primeiros passos ainda e estes apresentam falhas, assim como nossos imortais já apresentaram um dia.
Pelo menos, em minha cabeça, é essa a diferença. Veja bem, temos hoje Cesar Bravo - um escritor incrível que está arrastando multidões de leitores por onde passa - mas que ainda não foi considerado um escritor clássico. Raphael Montes é outro exemplo e estou aqui nomeando apenas os que escrevem um determinado gênero (terror/Suspense). Então, se o que diferencia um Cesar Bravo de um Stephen King é apenas o tempo, não devemos criticar leitores que se rendem aos contemporâneos.
Mas é inegável o quanto um clássico tem a nos dizer. Eles parecem mais profundos, mais encorpados e é deles que eu quero falar. O que torna um leitor mais profundo? Quais clássicos tornam sua bagagem realmente considerável? Você está no caminho certo em suas escolhas?
Alguns escritores são imprescindíveis para quem deseja se tornar um leitor respeitado: Vitor Hugo, Tolstoy, Dostoiévski, Thomas Man, Kafka, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Cervantes, Shakespeare, Alexandre Dumas, Gogol, Mia Couto, José de Alencar e mais um milhão de exemplos, mas são somente estes? Obvio que não.
Eu descobri, estes dias, que para cada clássico que eu leio, mais três títulos são acrescentados à minha lista, ou seja, eu jamais chegarei ao final e, acredite, essa é a melhor parte!
Eu tenho a honra de trazer à vocês, quase com exclusividade, um conto premiado, escrito pela Carla Ceres, que ganhou como o melhor conto de Piracicaba no 9º Pêmio Escriba de Contos, realizado este ano (2016). Ele tem tudo a ver com nosso mês do Halloween e por isso, aqui está:
A viúva do agiota
Parecia desrespeito ir ao asilo, importunar a viúva do agiota, mas Fernando precisava do empréstimo por um motivo nobre. Não tinha cabimento um jovem belo, forte e de futuro (sim, alguém como ele) não ter futuro nenhum por falta de dinheiro. Precisava aparentar o sucesso almejado antes de obtê-lo. Dinheiro atrai dinheiro. Negócios da China só aparecem para quem tem ou parece ter posses, não é?
Dona Rosália chegou sorridente. Usava um vestido discreto, mas caro. De seu braço pendia uma bolsa de verniz preto, combinando com os sapatos. Estava pronta para ir à missa. Escutou Fernando atentamente. Por fim, estabeleceu as condições para conceder-lhe o empréstimo. O rapaz ficou pensativo.
- Fechamos negócio então? - perguntou a velhinha, bebericando seu chá.
- A senhora não me leve a mal, por favor... eu sei que seu falecido marido era um grande... um grande...
- Banqueiro informal
- Isso! Banqueiro informal. Seu marido foi um grande banqueiro informal, mas nem ele cobraria esses 10% a mais.
- De fato. Com a morte do meu marido os custos operacionais no ramo de empréstimos subiram um pouco. O senhor veja: meu marido era um homem forte, que podia resolver certas pendências pessoalmente. Quanto a mim, mesmo sabendo atirar, prefiro confiar em profissionais. Minha vista anda fraca e eu poderia, sem querer, alvejar alguém de sua família. Seria uma pena. Aceita um biscoitinho de gengibre?
- Não, obrigado. Quer dizer que esses 10% são para algum sujeito atirar em mim?
- De jeito nenhum! Eu só contrato especialistas em artes marciais e armas brancas. Para algum reles sujeito atirar no senhor, bastaria muito menos.
- Entendo. Então acho que prefiro um não-especialista.
- Um não-especialista!? Prefere um amador!? O senhor é quem sabe. Admiro sua coragem, sua confiança de que poderá me pagar toda a quantia no dia combinado, impreterivelmente.
- Eu vou pagar.
- Claro que vai. Qualquer um pagaria se soubesse que tem um psicopata sádico no seu encalço. É pagar e rezar.
- Rezar pra quê?
- Pra que o amador não pegue seu dinheiro e, ainda assim, resolva fazer picadinho com o senhor, por diversão.
- A senhora está me assustando.
- Estou sendo honesta. Pense nos 10% como um seguro de vida. O senhor será visitado em domicílio, por um profissional bem vestido, dirigindo um veículo de porta-malas confortável.
- Por mim ele poderia vir de ônibus.
- Imagina! Aos melhores, o melhor. Um profissional estressado, com baixa autoestima poderia quebrar mais que seus dedos. Além disso, ônibus urbanos não têm porta-malas. O senhor não iria querer ser levado pro cativeiro amarrado no para-choque, não é?
- Cativeiro?
- Apenas até sua família quitar a dívida. Seu chá esfriou.
- A senhora acaba de me dar uma ideia. Parece que seria mais fácil eu sequestrar a senhora.
- Parece é?
- Seus filhos pagariam o que eu pedisse.
- Então vamos - disse a viúva, levantando-se e ajeitando o vestido.
- Pra onde? - perguntou Fernando, estupefato.
- Pro cativeiro.
Dona Rosália pegou a bolsa e virou-se para o espelho como quem verifica o penteado. Quando voltou a encarar Fernando, a agiota segurava uma pequena pistola negra, fosca e elegante, combinando perfeitamente com a bolsa de ir à missa.
Fernando saltou, derrubando a cadeira e fugiu. Dona Rosália, fiel aos ensinamentos do marido, foi até a janela e atirou. “Nunca saque uma arma se não estiver pronta pra usá-la”, dizia o falecido.
O tiro pegou de raspão. Dona Rosália desistiu da missa. Mandou a secretária marcar consulta urgente com o oftalmologista.
Obvio que não iria faltar meu escritor preferido no nosso #MêsDoHalloween!
Só mesmo o Stephen King, para começar um livro pelo final sem dar Spoiler algum e quando o leitor chega à última página, corre para o começo porque tudo se encaixa só ali, na última linha da introdução.
Sinopse: Ambientado na cidadezinha de Jerusalem's Lot, na Nova Inglaterra, o romance conta a história de três forasteiros. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a acertar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Senhor Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade. Após a chegada desses forasteiros, fatos inexplicáveis vêm perturbar a rotina provinciana de Jerusalem's Lot: uma criança é encontrada morta; habitantes começam a desaparecer sem deixar vestígios ou sucumbem a uma estranha doença. A morte passa a envolver a pequena cidade com seu toque maléfico e Ben e Mark são obrigados a escolher o único caminho que resta aos sobreviventes da praga: fugir. Mas isso não será tão simples, os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem's Lot estão agora para sempre interligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas.
Classificação
5*
Editora: Suma
Skoob
Esse foi o segundo livro que Stephen King escreveu na vida, lá em 1975. Nem dá para acreditar que o cara já tenha começado tão bem em sua carreira. Tudo bem que, quando você lê mais de 10 obras dele, percebe alguma diferença na escrita, mas isso aqui é genial demais para ser de um escritor principiante e só reforça o que sempre pensei: Stephen King já nasceu gênio e veio para esse mundo "prontinho da Silva".
Essa história começa realmente pelo final, com o fim da pequena cidade Jerusalem's Lot já sendo de conhecimento geral sua tragédia. E nas primeiras páginas você se sente completamente perdido, porque parece mesmo que está perdendo alguma coisa, mas calma, tudo se ajeita. King não te deixa muito tempo no escuro quando retrocede algum tempo e lhe mostra o panorama completo da trama.
E veja só, aqui temos outro escritor. Aliás, o primeiro escritor da carreira de King em suas obras. Veremos muito dessa profissão em suas histórias. Aqui, Ben Mears está de volta à sua cidade natal, pronto para resolver pendencias do passado que o deixou atormentado até então.
Ben está pronto para escrever um romance, baseado no seu medo de criança, aliás, o medo da maioria daquelas pessoas: A famosa Mansão Marsten, palco do mais aterrorizante boato de todos os tempos - Seu ultimo morador foi encontrado morto, enforcado em seu próprio quarto. Circunstancias suspeitas rodeiam essa morte e Ben sabe muito bem disso.
Ele espera, na verdade, superar esse trauma e seguir em frente, mas o que encontra é algo um pouco mais profundo. Logo de início tenta alugar a tal casa, que passou todos estes anos vazia, mas descobre que pouquíssimos dias antes, ela fora alugada para um homem que também está chegando à cidade com a intenção de abrir uma loja de antiguidades.
Como se trata de uma pequena cidade do interior, os boatos voam e logo toda a população está de orelhas em pé e olhos voltados tanto para a loja nova, quanto para os proprietários misteriosos da mansão, mas também para o Ben, o escritor - quase famoso - que passa a perambular pelas ruas.
E é aí que tudo muda drasticamente. Assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, sumiços de crianças e também de alguns mortos no necrotério se tornam comuns e o cenário vai ficando cada segundo mais assustador.
Lançado originalmente aqui no Brasil como o nome de A hora do Vampiro e com essa capa horrenda:
Salem foi resgatado pela Suma e acabou ganhando capa nova e voltou para seu nome original - que eu considero bem melhor - mas que, por anos, me fez pensar que esse livro se tratava de uma história sobre bruxas. Qual foi minha surpresa, descobrir que aqui, lidamos com o melhor tipo de vampiro que se pode existir. O tipo mal, perverso e sem sentimento algum. A criatura apavorante que todos temem e não algo sedutor e irresistível. (ps: aqui ele não brilha, juro).
Eu não vejo problema nessa gama de tipos de vampiros. Gosto da versatilidade que essa criatura recebeu na literatura, só quero ressaltar que aqui ele é daquele tipo clássico, que a maioria prefere.
Esse livro é instigante do começo ao fim. Os personagens são muito bem construídos e você sente empatia por vários no decorrer da história. Bem, se tratando de um livro do King, inevitavelmente, você irá chorar por alguma morte e eu senti várias aqui.
Os personagens do King parecem mesmo ter um vasto passado e é isso que dá a eles tanta profundidade. Um dia falo melhor disso aqui no blog, quero ler mais obras do autor para essa analise. Mas voltando a história: VAMPIROS! Como poderia dar errado? A melhor criatura da ficção, escrita pelo melhor escritor de terror?
É um livro impecável, com críticas bem feitas, assim como em todas as suas outras obras. Como sempre ele pega no pé da religião e também dos costumes das pessoas que vivem em cidades pequenas.
Em resumo, Salem é quase uma "boia salva-vidas" no mar de tantas ficções mal feitas que existem atualmente nas livrarias. É quase confortador poder sentir medo dessas criaturas noturnas, que não tem pretensão alguma além de matar. É um refresco para quem gosta de terror ao mesmo em tempo que um deleite para os que amam, acima de tudo, uma história muito bem contada.
Você pode falar o que quiser, pode criticar que o cinema coloca atores jovens demais em filmes assustadores. Pode se debater com a ideia de que uma pequena criancinha precisou atuar ao lado de pessoas vestidas de demônio ou coisa pior...
Fato é que, sempre que uma criança está envolvida em um projeto como esse a "parada fica séria" e o filme (livro, série ou qualquer coisa do gênero) se eleva a um nível bem maior de medo.
Em resumo: Crianças são assustadoras! (até fora dos filmes, diga-se de passagem).
Tenho alguns exemplos do quanto esses pestinhas podem tirar o telespectador do sério. Veja isso:
O Cemitério (Stephen King) - O pequeno Gage tão meigo e fofo, depois que decide voltar do mundo dos mortos consegue retalhar o vizinho, aterrorizar o pai a mãe, o papagaio e eu!
O Grito - Então pulamos para esse filme que foi terrivelmente fraco (pra mim), mas que teve sua salvação ao apresentar o adorável Toshio. Já ali na escada eu vi que aquela criança não era normal. Algo de muito errado morava ali (arrepiei aqui, sério).
A colheita Maldita - E se uma criança não basta, vamos logo colocar um monte delas.
A-PA-VO-RAN-TE. Algo naquela inocência velada delas me incomoda.
A Mulher de Preto - Aqui a criança não é o problema. Bem, é sim, mas a mulher de preto é pior. A questão é que tudo que envolvia essa pequena criaturinha tinha uma atmosfera tão apavorante que... QUE MEDO!
A Órfã - Que menina maldita. Sem mais!
O bebê de Rosemary - O que? Não vale recém-nascido? Aposto que ele não te daria esse mole todo.
O Iluminado - Quem, dotado de uma memória, irá esquecer aquelas gêmeas malditas querendo brincar PARA SEMPRE!
Ah, chega né? Questão é que crianças são assustadoras desde sempre e tenho certeza que elas tiram de letra atuar nesses filmes. Sabe de uma coisa, acho até que elas gostam desse poder que exercem em nós.
Eis que passeando pela literatura Russa, acabei conhecendo nomes que eu não sabia que existiam. Nicolai Gogol foi um desses, o que me fez pensar o quanto eu NÃO CONHEÇO quase nada fora dos clássicos mais vendidos.
Bem, posso encarar essa experiência de duas formas:
Estou com falta de tempo nessa encarnação para conhecer, pelo menos, a primeira camada desses escritores.
Tenho um leque infinito de possibilidades agora.
De qualquer forma, quero agradecer meu mais novo amigo, Marcos, engajado em assuntos russos que está me influenciando positivamente. Mas vamos à obra.
O retrato me chamou a atenção, primeiramente pela capa. Eu queria ler algo do autor, mas como não conhecia nada dele, foi assim a minha escolha. Não me julguem, no fim das contas esse fator foi importante e falarei mais dele no final da resenha.
O conto de apenas 66 páginas é dividido em duas partes, sendo a primeira a história de um jovem pintor chamado Tchartkov que entra em uma loja de antiguidades e se vê deslumbrado por um quadro.
Bem, deslumbrado não seria bem a palavra certa, pois o tal quadro exercia sobre ele certa inquietação, mas ao mesmo em tempo que isso o repudiava, algo na imagem o fazia não querer deixa-lo para trás.
E, quando deu por si, já estava carregando o quadro para casa, mesmo estando ele à beira da falência. Sua carreira como pintor estava em baixa. Seu aluguel atrasado e as únicas coisas que ele pintava nos últimos tempos era a imagem de seu colega de quarto em seu próprio quarto bagunçado e miserável.
Como o próprio título diz, o retrato é o grande destaque desse conto. Senti aquela nostalgia de quem leu a, deliciosa, obra "O Retrato de Dorian Gray" e preciso dizer, as semelhanças são enormes.
Em uma rápida pesquisa vi que a criação das obras possuem 55 anos de diferença o que me faz pensar que meu querido Oscar Wild, talvez, tenha se inspirado nesse conto para escrever sua obra prima. (Isso é uma reflexão minha, posso estar errada).
Acontece que Tchartkov se vê assombrado por essa pintura desde o primeiro dia. Os olhos do homem retratado no quadro são tão vívidos que lhe causa pesadelos. Ele parece mesmo ser real ou algo mais do que uma pintura.
Arriscando-me a deixar escapar algum "spoiler" aqui, preciso contar que Tchartkov consegue uma grande soma de dinheiro, por causa do quadro (não vou contar como e nem quando) e resolve mudar sua vida completamente.
Tchartkov deixa a vaidade falar mais alto. Logo que coloca as mãos naquela quantia toda, corre e aluga um apartamento melhor, se abastece de roupas novas, toma os vinhos mais caros, come em restaurantes de alto nível e cria anúncios mentirosos se autopromovendo como um pintor primoroso da época.
Uma pequena observação: Tchartkov era realmente talentoso. Os retratos de seu antigo quarto e de seu antigo modelo, mesmo que pobres, eram dotados de alma e cores deslumbrantes, mas como ninguém o conhecia, levariam anos para ser levado a sério. Algo que com aquela soma de dinheiro seria possível caso ele pensasse de forma responsável.
Mas a ganância de ser famoso falou mais alto e Tchartkov se rendeu ao modismo, se entregou aos retratos mais fáceis e fez seu nome na alta sociedade. Com o tempo e sem nenhum desafio para seu talento, acabou perdendo o tato e a imaginação que todo artista precisa ter e...
Vou parando por aqui!
Como mencionei acima, o conto é dividido em duas partes e a segunda se mostra impossibilitada de aparecer nessa resenha. Não quero desvendar nada do que vai acontecer, mas acredito que várias conspirações já estão se formando nas mentes sombrias que estão lendo esse texto.
Algumas terão lógica, mas quero ressaltar que vale a pena ler o conto e descobrir o que tem de errado com esse retrato.
Agora voltamos, rapidamente, à minha escolha pela capa:
Não é de se espantar que eu tenha me rendido à leitura desse conto, uma vez que a capa é exatamente a imagem do tal retrato amaldiçoado!