A última festa de Halloween

Conto escrito por mim especialmente para fechar o mês do Halloween! 
Espero que gostem.


A última festa de Halloween

Cinco anos atrás.

Estava tudo pronto. A casa plenamente decorada, as luzes brancas enroladas nos troncos das árvores e nos pilares da frente da casa davam um ar fantasmagórico à noite mais divertida do ano. Era Halloween e fora nessa noite que Marri decidiu mudar o rumo de sua vida.

Marri havia mudado no começo daquele ano para a pequena cidade do interior com sua família, mas não conseguiu se encaixar em turma alguma em sua escola. Já no segundo ano do segundo grau, todos se conheciam desde sempre e a garota nova, e levemente estranha, não encontrou abertura para novas amizades.

Mas sua aptidão para dar festas e seu amor pelo Halloween deu a ela uma grande ideia. Sem ajuda de ninguém imprimiu alguns panfletos e os distribuiu pela escola toda, convidando os alunos para uma enorme festa de Halloween em sua casa.  O panfleto dizia que ela daria comidas e bebidas e, como única exigência, todos deveriam aparecer com fantasias assustadoras. Era sua última ideia para atrair amigos.

Quem não gosta de festas? Quem não gosta de Halloween? – Ela pensava.

O grande dia chegou. Marri acordou cedo e preparou os doces e salgados que seriam servidos em sua festa. Seus pais ajudaram com as bebidas e prometeram sair de casa para dar a ela mais liberdade, afinal de contas, Marri era uma garota exemplar, desesperada por amigos.

A noite chegou e as luzes foram apagadas deixando apenas os pisca-piscas revelarem a decoração. Abóboras desenhadas com rostos horripilantes do famigerado Jack O´Lantern estavam espalhadas por toda a entrada, um enorme espantalho havia sido instalado ao lado do portão, já aberto, e apenas seus olhos estavam iluminados com duas lâmpadas vermelhas. 

Marri ligou o aparelho de som em sua sala que intercalava sussurros e gritos com uma risada diabólica de bruxa e postou-se na porta já fantasiada de vampira. Com os caninos mais reais que fariam Drácula repensar se havia tido uma filha perdida por aí e sua capa que ia até o calcanhar retocou a maquiagem. Seu rosto estava tão assustador que ela agradeceu que seus pais já haviam saído. 

BramStocker ficaria satisfeito comigo! – Pensou e esperou.

Mas ninguém apareceu.

Marri esperou por horas e horas, mas estava evidente que havia fracassado em mais uma tentativa de se enturmar, então fechou o portão e entrou em sua casa, cabisbaixa e completamente envergonhada. Decidiu desligar as luzes e jantar a refeição mais deliciosa que já havia feito, mas não conseguiu.
A tristeza tomou conta de seu coração e temendo encontrar-se com seus pais resolveu dar uma volta, esquecendo até mesmo que ainda estava fantasiada. Ao sair olhou para trás a fim de admirar sua decoração, mas o que viu lhe roubou o ar dos pulmões.

No muro de sua casa havia sido pichada, com um spray vermelho, a seguinte frase:

Marri, a estranha

Marri sentiu os joelhos tremer. Desejou virar fumaça e sumir daquele mundo que julgava festas de Halloween um terror, mas que conseguia ser bem mais cruel do que os piores vilões do cinema e literatura.

Ainda com o coração aos tropeços subiu a sua rua mal iluminada e andou por alguns quarteirões. Talvez tivesse tempo de limpar tudo em sua casa antes dos pais chegarem e assim a vergonha poderia ser amenizada. Talvez devesse ligar para alguém, a fim de perguntar o que havia acontecido. Talvez ela tivesse se esquecido de colocar o endereço no maldito panfleto.

Ainda refletindo sobre os vários motivos hipotéticos por ter fracassado novamente, escutou o barulho forte de uma batida eletrônica em uma das casas na rua em que estava e foi até lá. Do outro lado da rua, escondida nas sombras das árvores viu o que deveria estar acontecendo em sua casa: Uma festa.
Mas era uma festa normal, sem nenhuma decoração e se não fossem as fantasias ninguém perceberia que estavam comemorando o Halloween. Marri se aproximou e a cada passo que dava seu coração se dilacerava. Não havia propósito naquela festa, ninguém havia se esforçado como ela para decorar o ambiente como deveria ser nessa data tão bacana.

As pessoas ali usavam as fantasias como arma de sedução e isso parecia uma afronta para ela. Logo na entrada, um casal de múmias sexy enroladas em faixas que denunciavam seus belos corpos, trombou em Marri e foram para fora da casa se agarrando sem nenhum pudor. 

Após o portão estava pior, uma garota vestida de enfermeira sexy toda ensanguentada estava aos beijos com o Frankstein mais lindo do mundo, enquanto um vampiro, parecendo o Edward, brilhava embaixo de uma grossa camada de glitter enquanto comandava o som da festa.

Três garotas fantasiadas de Bruxa sexy dançavam se oferecendo ao Edward do som deixando um grupo de Zumbis com os braços malhados e pernas fortes, excitados até os últimos fios de cabelo. 

Aquilo era a maior heresia do mundo. Como haviam deturpado a melhor festa do ano daquele jeito? Como haviam ignorado a decoração magnífica que ela havia demorado um mês inteiro para fazer? Aquela porcaria de festa não oferecia nem bebida e todos pareciam em um completo transe erótico.

Marri sentiu os nervos do corpo se inflar. A raiva que crescia em seu coração a deixou cega. Não aguentava mais ser ignorada por aquelas pessoas vazias e fúteis, enquanto tentava com todo afinco os conquistar com um padrão bem mais alto do que aquele. 

Enraivecida foi até o som com passos firmes e arrancou os fios mal encapados da tomada cessando aquela música de péssimo gosto, ao mesmo tempo em que sentia uma corrente elétrica passar pelo seu corpo a arrepiando toda. Um grito sepulcral escapou de sua garganta e a eletricidade se transformou em ódio que corria em sua corrente sanguínea.

Todos os monstros sexy pararam e olharam para ela, então os buchichos começaram. Marri sentia-se envergonhada novamente. As pessoas olhavam para ela com semblantes assustados e foi quando ela se lembrou de que ainda estava fantasiada de vampira horripilante e nada sexy. Um garoto no fundo da casa começou a dar gargalhadas e se aproximou sorrateiramente. Ela podia escutar o coração de todos ao seu lado como se cada um tivesse uma caixa de som acoplada ao peito. 

- Como você é estranha, Marri. Olha essa fantasia pavorosa que está usando. Parece até a filha do Drácula...

Aquilo era um elogio ou uma ofensa? – Ela pensou, mas antes de decidir o garoto se aproximou ainda mais e ela pode ver sua fantasia.

Com uma capa de couro negra e botas de cano alto, o garoto moreno com o resto deslumbrante ainda usava um chapéu e segurava uma estaca afiada de madeira que completava sua fantasia de Van Helsing. Ele estava tão lindo e sexy dentro daquele traje que ela quase se apaixonou por seu maior inimigo.

Espera aí, ele não é meu inimigo. Tem algo errado comigo – Pensou assustada. Algo dentro dela despertou e, por um segundo, sentiu vontade de morder aquele garoto. Era absurdo, ela sabia, mas inexplicavelmente a veia do pescoço dele saltava aos seus olhos e tudo que ela queria era voar para cima dele.

Os adolescentes ao redor riam dela, mas no fundo sentiam um medo inexplicável e atribuíam isso a sua fantasia tão real e tão sombria.

- Vocês parecem um bando de animais no cio com essas fantasias se oferecendo uns aos outros. Halloween é uma festa de terror e não um filme pornográfico – Disse finalmente quase sussurrando.
- Ah, eu já sei por que você está nervosa. É porque ninguém foi a sua festa? Você montou um verdadeiro circo dos horrores em frente a sua casa e ainda esperava que parássemos lá? – Disse o Van Helsing sexy apertando sua estaca com tanta força que os nódulos dos dedos ficaram brancos. 

Marri perdeu a consciência. Nunca pensou que ser rejeitada daquela forma pudesse tirá-la completamente do ar. A partir daí tudo que aconteceu foi involuntário e totalmente por instinto. Mais tarde, alguns alunos mais exaltados disseram à polícia que Marri sempre fora uma vampira disfarçada e que naquela noite havia finalmente se revelado. 

Outros disseram que ela havia chegado à festa completamente drogada e por isso agiu estranhamente, mas ninguém soube explicar o porquê daquela garota ter avançado sobre o deslumbrante Van Helsing, rugindo como só um monstro poderia fazer e drenou todo o seu sangue bem ali, na frente de todos.

Ninguém conseguiu explicar também, porque ela sorria ao terminar seu banquete sangrento e amaldiçoou todos que ali estavam e prometeu voltar a cada ano para se vingar da heresia que cometiam antes de sair voando da casa.

Marri ainda é procurada pela polícia, pelos seus pais e por alguns curiosos. As festas de Halloween continuaram até hoje, mas ninguém nunca mais vestiu algo sexy e saiu de casa no dia 31 de outubro. O Halloween começou a ser levado a sério naquela cidade e, dessa forma, nunca mais precisou presenciar nenhuma tragédia como naquela noite. 

Magia ou não, sendo vampira ou não, Marri é lembrada naquela cidade pelo menos uma vez por ano, pois a casa, mesmo abandonada por seus pais e mesmo sem receber energia elétrica alguma desde sua morte, todo ano, na noite de Halloween, aparece iluminada por pisca-piscas, ornamentada por abóboras assustadoras e espantalhos com os olhos vermelhos.

Inspirado na obra “Carrie” de Stephen King.

Excelente Halloween para Vocês! 
Aproveitem o fim de semana!

10 comentários

  1. Mais um lindo conto por aqui,Camila! Mesmo sem comentar, tenho acompanhado! bjs, tudo de bom e lindas travessuras! chica

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  2. Um fds regado de gostosuras e travessuras pra vc =)

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  3. Duvido que alguém esteja, de verdade, procurando a Marri. Ela ainda deve estar na cidade e, quando as pessoas passam por ela, protegem o pescoço e se mandam rapidinho, fingindo que não a viram. Até como pseudoassombração ela continua impopular. ;) Gostei do conto, Camila. Parabéns!

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  4. Uauuu, muito bom este conto para este dia, rsrsrs amei... beijos e um final de semana maravilhoso!!!

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  5. Fantastico querida amiga Camila ,muitos beijinhos

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  6. Olá Camila,
    Excelente, envolvente e surpreendente.
    Afinal, Marri era mesmo 'estranha' (até para ela)-rsrs
    Parabéns pela criatividade.

    Ótimo final de semana.

    Beijo.

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  7. Gostei! Parabéns!

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  8. Carrie, Marri, CamiLINDA... amo muito tudo isso... hahahaha! Arrasou - e assustou, môbeim! Beijocaaaaaaaaaaas!

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  9. AAAAAAAH, é foda ser BFF de autora né? Cheguei toda empolgada aqui para ler o conto e tal... Mas você já tinha passado em OFF (sou chique beín) hahaha Enfim, uma delícia de conto de arrepiar os pelinhos do braço mesmo na segunda vez... No aguardo de novas produções e produções paradas, viu, senhorita! Apesar de algo novo sempre empolgar, Nicolas e cia estão fazendo falta na minha vida (tô até esquecendo nomes de personagens!!!)

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