[Conto] O sino da Tempestade - Carla Ceres

Hoje é um dia especial.
Nosso mês do Halloween não seria o mesmo, se a talentosa Carla Ceres não passasse por aqui. Portanto, aproveite esse conto EXCLUSIVO, escrito por ela:

O sino da Tempestade

Imagem gentilmente cedida pelo site Cardoso Sinos e Relógios

Invadir a igreja foi fácil. Meu irmão era coroinha. Surrupiou a chave da porta lateral e, à meia-noite, subimos à torre, para sabotar o sino.

Os cartuchos de pólvora ficaram na casa do Binho. Não queríamos explodir o sino. Ele era milagroso, e nós, como quase todo mundo na nossa cidadezinha, acreditávamos em seus poderes. O plano era revestir seu interior com uns travesseiros velhos, para impedi-lo de soar. Mesmo no escuro e morrendo de medo, conseguimos. Para completar, escondemos a escadinha dobrável que o padre usava para enfeitar o sino em dias de festa. Assim, mesmo que descobrissem nossa arte, não conseguiriam desfazê-la rapidamente.

Claro que a sabotagem era só a primeira parte do plano. No dia seguinte, foi a vez dos tornados. Queríamos caçar tornados no Vale da Ventania, perto da casa do Binho, o maior especialista em explosivos da oitava série. Acontece que o sino atrapalhava. Por causa do sino, não havia tornados na região, só uns redemoinhos grandões, cheios de folhas secas e poeira. Pra dizer a verdade, o último grande vendaval que se meteu a besta com o nosso sino foi o de 1978, meu pai nem era nascido. Minha avó conta que bastaram as primeiras badaladas pros ventos sossegarem.

Imagem: Wikimedia Commons

O Binho não sabia fazer uma bomba atômica. Isso estragava um pouco o nosso plano, pois todo mundo sabe que um tornado dos grandes só sossegaria se explodissem uma bomba atômica dentro dele. Tivemos que nos contentar com bombas comuns, acionadas à distância. Plantamos os explosivos no vale e ficamos de longe, esperando os tornados. Vieram dois redemoinhos. Deixamos passar. Queríamos caça maior. Veio mais um, bem sem graça. Deixamos passar. Quando chegou o quarto redemoinho, já estávamos fartos de não fazer nada e resolvemos treinar com ele. Fogo! O malandro deu uma finta e passou longe da explosão, todo prosa. Que raiva! Continuamos praticando. Fogo! Fogo! Fogo! Acertamos dois. Foi a glória.

O Binho correu pra casa e pegou dinamite. Nossa, como sentimos inveja dele! Nosso pai era presidente da câmara. Isso nem se comparava a ter um pai que trabalhava na pedreira e trazia toneladas de explosivos pra casa, pro filho brincar.

Dessa vez, ficamos bem longe, de verdade. O redemoinho que veio fez jus aos explosivos. Era grande, do tamanho de uma girafa na ponta dos pés, com o pescoço esticado. Fazia até barulho. Fogo! O estrondo foi assustador, mas apavorante mesmo foi o grito que o acompanhou, um grito humano ou quase. De onde havia surgido aquele menino? Nós não o tínhamos visto. Agora ele estava lá, caído no meio da cratera da explosão, morto. Começamos a chorar. Éramos assassinos.

Papai chegou minutos após nosso telefonema. “Não contem a ninguém o que aconteceu”, ordenou nervoso. “Olhem bem pra ele. Vocês conhecem esse menino?” Não conhecíamos. Era um menino estranho, magro, os cabelos compridos sujos de terra. Bem, ele todo estava sujo de terra, talvez por causa da explosão. E usava um colete cáqui, grande demais e uma saia longa de mulher. “Ele estava dentro do redemoinho”, meu irmão insistia em dizer, aos prantos.

“O Jonas vai saber o que fazer”, papai disse, colocando o corpo do menino na carroceria da nossa caminhonete, cobrindo-o com uma lona e saindo à toda, para o Instituto Médico Legal, onde nosso tio Jonas trabalhava. Nós, os assassinos, ficamos no Vale da Ventania, chorando.

FOTO DA TEMPESTADE DE POEIRA: 

Uma tempestade começou a se formar. O Binho se abrigou em sua casa e não nos deixou entrar. “Fora daqui, seus assassinos! Eu nem conheço vocês!”, gritou, batendo a porta. Meu irmão soluçou pelo caminho todo até chegarmos à cidade. Deixei-o em casa e fui pro IML. Eu era o mais velho, precisava assumir a culpa ou o remorso me enlouqueceria. O corpo do menino estava sobre uma das mesas de cirurgia, sozinho. Nem sinal de meu pai, meu tio ou, ao menos, uma recepcionista. A ventania da tempestade lá fora deve ter derrubado algum poste porque as luzes se apagaram. Fiquei no escuro, com o cadáver e imaginei tê-lo ouvido gemer. Fugi para a rua. O vendaval destelhava casas como se procurasse algo. Por fim, encontrou. Arrancou o telhado do IML e levou o corpo do menino para o alto, num redemoinho gigante.

Corri para a igreja. Carreguei a escadinha torre acima. Arranquei os travesseiros do sino. Uma rajada de vento trouxe o menino morto. Ele me agarrou, me olhou nos olhos e perguntou “Por quê? Nosso povo tem deixado vocês em paz”. Em vez de responder, toquei o sino. Antes de se desfazer no ar, o garoto com olhos de ventania me atirou da torre.

Um mês depois, saí do coma e descobri que me tornara um tipo de herói municipal por tocar o sino e salvar a cidade. Sobre o menino morto, ninguém fala. Só querem saber como o colete do verdureiro e a saia da vereadora Jacira foram parar na torre da igreja, com uns travesseiros muito suspeitos. O casal diz que as roupas estavam no varal. O povo não acredita. Gentinha fofoqueira!


Escrito por: Carla Ceres



30 comentários

  1. Espero que o pessoal goste do conto, Camila. Foi divertido escrever. Beijos!

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  2. Respostas
    1. Muito obrigada! Que bom que gostou! Abraço!

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  3. Marilia Mota Silva17 de outubro de 2015 10:16

    Fantástico, cheio de tensão. Adorei o conto!

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    1. Valeu, Marília! Muito obrigada pela força, aqui e no Facebook! Beijos!

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  4. Amei o conto.Gostaria que o Halloween fosse mais divertido aqui no Brasil né ahahahah :)


    Gostei ehehehehe ^^

    beeijão
    http://carolhermanas.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigada, Carolina! Um pouquinho de bom humor melhora tudo, né? :) Beijos!

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  5. Que conto legal! mais um, aliás! bjs, tudo de bom,chica e lindo domingo!

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  6. Adorei o conto Cah !

    Parabéns pelo talento Carla ! :)

    Beijo pras duas !

    | O Blog Que Não é Blog |

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  7. Parabéns! Eu não acho fácil escrever conto.
    Gostei muito.

    BEIJO!

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    1. E quanto menor o conto, mais difícil, Vanessa. Fico feliz que você tenha gostado. Beijos!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Parabéns Carla... Amei o conto... genteeee depois que conheci a Camila meu halloween ficou bem mais interessante com as indicações de leitura dela.... kkkkkkkkkkkk

    http://livrosterapias.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Laila! Os meus Halloweens pós-Camila também melhoraram horrores. :) Beijos!

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  10. Algum dia você vai me surpreender com alguma narrativa que não seja no mínimo sensacional, Carla?
    Esse foi demais!

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    1. Puxa, obrigada, Schloesser! Muita gentileza sua! Abraço!

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  11. Ahhh, muito bom este conto, adorei o final, rsrsrs... parabéns para a Carla Ceres... beijosss!!!

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  12. Excelente! A Carla uniu suspense e humor nesta ótima história.
    Beijos, Carla e Camila! Vocês arrasaram!

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    1. Valeu, Regina! Você mora no nosso coração. Beijos!

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  13. Oie Carla =)

    Ótimo conto! Você é muito talentosa, parabéns!
    Continue mostrando seus trabalhos por aqui ;)

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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  14. Muito bom o conto. O suspense me lembrou do filme efeito borboleta.

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    1. Que bom! Obrigada pela força, Vitor! Abraço!

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