Enfim, eu li Italo Calvino, minha gente e vou dizer: Adorei!
Sinopse: O Visconde Medardo di Terralba, em temerária arremetida contra a ímpia artilharia de turcos, leva um tiro de canhão no peito. O destemido mas inexperiente defensor da cristandade sofre sérias avarias, sobrando-lhe apenas uma metade do corpo, felizmente intacta. Graças ao entusiasmo dos médicos que o socorrem, Medardo sobrevive, embora partido ao meio. À mutilação física do senhor de Terralba seguem-se consequências indesejáveis em seu comportamento, causando grandes desgostos aos moradores de seus domínios. Mas quando os camponeses já estavam se acostumando às idiossincrastias do visconde, eis que ressurge a outra metade, para grande confusão e maior transtorno geral. Se meio visconde já incomodava tanta gente, o que dizer de duas metades contraitórias de Medardo di Terralba?
Classificação
Editora: Companhia das Letras
O livro é fininho de tudo, li em duas tardes, com toda a calma, mas vou logo dizendo, não é uma leitura levinha. A Escrita do Calvino é densa e floreada. Tenho a impressão que ele sempre queria dizer bem mais do que escrevia e por isso parava a leitura algumas vezes para pensar.
A história é hilária e a ideia muito original. Um Visconde que leva um tiro de canhão na guerra e tem uma das suas metades (a direita) salva pelos médicos, volta para casa.
"Em suma, salvara-se apenas metade, a parte direita, que aliás se conservara perfeitamente, sem nem sequer um arranhão, excluindo aquela enorme rasgadura que a separara da parte esquerda estraçalhada".
O curioso e que coisas estranhas começam a acontecer na vila em que ele mora. Além de artes como: Frutas que aparecem comidas nas árvores (só pela metade) flores são arrancadas pela metade da terra, etc... O Visconde Metardo passa a ser uma pessoa detestável. Detestável mesmo e não do tipo só "chatinho".
A maldade emana dele de forma descontrolada e, como ele é um visconde (mesmo partido ao meio) manda e desmanda como quer. Dá ordens para prender pessoas sem motivo algum. Enforca vários prisioneiros por ninharia e espalha o medo ao seu redor.
"Metardo condenou Fiorfiero e toda a sua quadrilha a morrerem na fora, culpados de rapina. mas como as vitimas eram por sua vez caçadores ilegais, condenou-as igualmente a foca. E para punir os guardas que intervieram tarde demais e que não souberam prevenir os crimes dos caçadores nem os dois bandidos, decretou que eles também fossem enforcados".
Um dia ele se apaixona e decide, com toda a sua maldade, que vai casar. A vontade da moça não conta, é claro, e o casamento é quase certo, mas dessa vez, os planos de Metardo podem não dar certo.
É que, do nada, sua outra metade aparecesse de volta à vila, (A metade boa) e assim como a metade má que já estava ali, passa a destilar sua personalidade por onde passa.
Agora, não pensem que só bondade em um ser é algo ótimo... Essa é a beleza dessa obra, um pouco difícil de ler, mas de uma genialidade incrível!
"Que se pudesse partir ao meio todas as coisas inteiras - disse meu tio de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo, que todas pudessem sair de sua abstrusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: Acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virasse a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, havia de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você haverá de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo sua imagem, pois a beleza, sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços.
Gente, o livro é divertido demais. Vale a pena ser conferido, mesmo com a linguagem mais complexa. São poucas páginas e logo no início você esquece qualquer dificuldade. Eu recomendo!





















.jpg)













