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[Livro] Adriana Sydor, toda prosa

Mais uma obra nacional que me encanta. Estou cada dia mais contente com a literatura do nosso país. Bobo é aquele que ainda não experimentou e ainda mais bobo é aquele que ainda sente relutância ou lê um nacional com o pé atrás, sem se permitir aproveitar o que temos de melhor.





Sinopse: Adriana Sydor, toda prosa é um livro de crônicas escritas em primeira pessoa e que falam sobre diferentes assuntos: insônia, lembranças, faxina, vizinhos, despedidas, piquenique, acampamento, chuva, amizade, filhos e outros tantos elementos presentes em nosso cotidiano. As crônicas foram tiradas do blog da autora, Mil Compassos, e conversam com o leitor de forma poética e descontraída.







Classificação

Sabe o famoso "livro de cabeceira"? Essa obra, escrita pela talentosíssima Adriana Sydor, merece este status, se não for pela sutileza de suas palavras, que seja pelo teor despojado dos temas tão corriqueiros que ele traz. Ele é todo escrito de uma forma tão poética que parece arte. Bem, a escrita não é toda uma forma de arte?

a cada dia que passa meus cabelos ficam mais pálidos. também perdem vigor e volume e quase não faz sentido estarem a cobrir as costas. estola de bicho quase morto. tão difícil envelhecer. tão bom envelhecer. crise"

No começo do livro, fiquei um pouco incomodada com a forma de escrita da Adriana, mas levando em consideração que essa escrita é toda poética, tentei relaxar eu deu certo. Do que estou falando? O texto todo é escrito em letra minúscula e isso para uma pessoa que escreve e lê - como eu - ou que tem TOC ao ver as coisas feitas de forma diferente das convencionais, pareceu quase um castigo. Mas a explicação veio bem nas primeiras páginas e olha que amor:

com isso me pretendo engenheira e nos meus prédios têm me incomodado, tempos pra cá, a letra maiúscula no início de cada jornada. é como se eu desse poder diferente ao primeiro da fila só porque ocupa tal lugar. um destaque do acaso, uma injustiça montada, previamente determinada. no receio de que tal diferença plante inveja e as palavras iniciem rebelião para serem, a qualquer custo, donas dessa evidência, dessa referência, e comecem a se desentender, resolvi que, em meus prédios, todos serão iguais."
para mim isso foi o suficiente e por isso seguirei a resenha da mesma forma, para exercitar meu auto controle e também para continuar não sendo injusta com ninguém aqui neste texto.

a magia está presente em todas as páginas desse texto. é delicioso ler. é rápido (e eu já estou surtando com estas letras minúsculas aí) e muitas vezes me fez sorrir.


algumas páginas, no meio dessa obra são escritas à mão. achei fofo, me pareceu algo mais próximo de uma caderno de reflexões do que de uma obra literária. senti, como se tivesse roubado o diário da Adriana e isso foi divertidíssimo. 

não brinco com o tempo. já sei como ele é: rápido no gatilho, traiçoeiro, não espera a gente contar até dez para puxar arma e disparar"
Escritora Adriana Sydor (Linda né?)
uma reunião de crônicas pequenininhas. todas leves e delicadas. se você está procurando uma leitura desse tipo, recomendo esse livro com força. ele pode, tranquilamente, ser o substituto daquele seu livrinho chamado "Um minuto de Sabedoria" sabe? aquele que você lê rapidinho, todos os dias e que te faz sorrir antes de sair para o trabalho.

Ficou interessado? Visita o site da Editora Travessa dos Editores ou passa lá no Blog Mil Compassos que é de onde saiu essa ideia.
***

Este livro faz parte do meu projeto #LendoDeGraça, que consiste em ler sem pagar nada, conseguindo obras por meio de trocas on line, em sebos etc... Leia mais sobre esse projeto AQUI. >>> Essa obra foi cedida pela Agente Literária Stéphane Chao que representa escritores no mercado brasileiro e no exterior. Entre eles Antônio Torres, Márcio Souza, Raimundo Carrero e a própria Adriana Sydor. Ela entrou em contato comigo após conhecer o blog. Recebi um exemplar impresso que está lindamente guardado em minha estante.



A última crônica

Estes dias eu estava passeando pela mil páginas literárias que tenho no meu reader e me deparei com esse texto, delicioso, do escritor Fernando Sabino, publicado na Revista Pacheco.

Não resisti e o trouxe aqui para vocês se deliciarem também. Portanto, aproveitem:

Clássicos da Literatura: A última crônica


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Fernando Sabino



AVISO: Fiz uma cirurgia ontem para retirada da vesícula e por isso ficarei, alguns dias, ausente. Espero estar, agora mesmo, lendo o comentário de vocês. Volto logo, algumas gramas mais magra, por conta dessa porcaria de vesícula que tirei de mim! \O/


Abraço Caudaloso - Gregório Duvivier

Há umas três semanas, eu fui prestar um concurso publico feito pela Vunesp e na parte de Português havia um texto que me serviu como refresco em uma prova absurdamente difícil.

O texto é do Gregório Duvivier (Porta dos fundos) e se eu já gostava dele, agora passei a gostar muito mais. Li o texto, respondi as questões e finalizei a prova sorrindo. Ainda reservei uns minutinhos no final para reler o texto, porque sério, vale muito a pena! Confiram:

Abraço Caudaloso (02/02/2015 - Folha de São Paulo)

Amizade entre cronistas é um perigo: todo papo esbarra em crônica, já que toda crônica é uma espécie de papo. Foi numa conversa com o Antonio Prata, meu ex-amigo-platônico -"ex" não por não ser mais amigo mas por não ser mais platônico- que a bola começou a quicar. "Isso dá uma crônica", ele disse. Mas nenhum dos dois escreveu, por escrúpulos de estar roubando a ideia do outro. Eu, que tenho menos escrúpulos e menos ideias, resolvi escrever.

Palavras, percebemos, são pessoas. Algumas são sozinhas: Abracadabra. Eureca. Bingo. Outras são promíscuas (embora prefiram a palavra "gregária"): estão sempre cercadas de muitas outras: Que. De. Por.

Algumas palavras são casadas. A palavra caudaloso, por exemplo, tem união estável com a palavra rio -você dificilmente verá caudaloso andando por aí acompanhada de outra pessoa. O mesmo vale para frondosa, que está sempre com a árvore. Perdidamente, coitado, é um advérbio que só adverbia o adjetivo apaixonado. Nada é ledo a não ser o engano, assim como nada é crasso a não ser o erro. Ensejo é uma palavra que só serve para ser aproveitada. Algumas palavras estão numa situação pior, como calculista, que vive em constante ménage, sempre acompanhada de assassino, frio e e.

Algumas palavras dependem de outras, embora não sejam grudadas por um hífen -quando têm hífen elas não são casadas, são siamesas. Casamento acontece quando se está junto por algum mistério. Alguns dirão que é amor, outros dirão que é afinidade, carência, preguiça e outros sentimentos menos nobres (a palavra engano, por exemplo, só está com ledo por pena -sabe que ledo, essa palavra moribunda, não iria encontrar mais nada a essa altura do campeonato).

Esse é o problema do casamento entre as palavras, que por acaso é o mesmo do casamento entre pessoas. Tem sempre uma palavra que ama mais. A palavra árvore anda com várias palavras além de frondosa. O casamento é aberto, mas para um lado só. A palavra rio sai com várias outras palavras na calada da noite: grande, comprido, branco, vermelho -e caudaloso fica lá, sozinho, em casa, esperando o rio chegar, a comida esfriando no prato.

Um dia, caudaloso cansou de ser maltratado e resolveu sair com outras palavras. Esbarrou com o abraço que, por sua vez, estava farto de sair com grande, essa palavra tão gasta. O abraço caudaloso deu tão certo que ficaram perdidamente inseparáveis. Foi em Manoel de Barros. Talvez pra isso sirva a poesia, pra desfazer ledos enganos em prol de encontros mais frondosos.


Genial não é mesmo?! Quer ler mais crônicas como essa? Tem AQUI




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