Mostrando postagens com marcador Halloween 2016. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Halloween 2016. Mostrar todas as postagens

[Conto] A VIÚVA DO AGIOTA

Eu tenho a honra de trazer à vocês, quase com exclusividade, um conto premiado, escrito pela Carla Ceres, que ganhou como o melhor conto de Piracicaba no 9º Pêmio Escriba de Contos, realizado este ano (2016). Ele tem tudo a ver com nosso mês do Halloween e por isso, aqui está:


A viúva do agiota



Parecia desrespeito ir ao asilo, importunar a viúva do agiota, mas Fernando precisava do empréstimo por um motivo nobre. Não tinha cabimento um jovem belo, forte e de futuro (sim, alguém como ele) não ter futuro nenhum por falta de dinheiro. Precisava aparentar o sucesso almejado antes de obtê-lo. Dinheiro atrai dinheiro. Negócios da China só aparecem para quem tem ou parece ter posses, não é?

Dona Rosália chegou sorridente. Usava um vestido discreto, mas caro. De seu braço pendia uma bolsa de verniz preto, combinando com os sapatos. Estava pronta para ir à missa. Escutou Fernando atentamente. Por fim, estabeleceu as condições para conceder-lhe o empréstimo. O rapaz ficou pensativo.

- Fechamos negócio então? - perguntou a velhinha, bebericando seu chá.

- A senhora não me leve a mal, por favor... eu sei que seu falecido marido era um grande... um grande...

- Banqueiro informal

- Isso! Banqueiro informal. Seu marido foi um grande banqueiro informal, mas nem ele cobraria esses 10% a mais.

- De fato. Com a morte do meu marido os custos operacionais no ramo de empréstimos subiram um pouco. O senhor veja: meu marido era um homem forte, que podia resolver certas pendências pessoalmente. Quanto a mim, mesmo sabendo atirar, prefiro confiar em profissionais. Minha vista anda fraca e eu poderia, sem querer, alvejar alguém de sua família. Seria uma pena. Aceita um biscoitinho de gengibre?

- Não, obrigado. Quer dizer que esses 10% são para algum sujeito atirar em mim?

- De jeito nenhum! Eu só contrato especialistas em artes marciais e armas brancas. Para algum reles sujeito atirar no senhor, bastaria muito menos.

- Entendo. Então acho que prefiro um não-especialista.

- Um não-especialista!? Prefere um amador!? O senhor é quem sabe. Admiro sua coragem, sua confiança de que poderá me pagar toda a quantia no dia combinado, impreterivelmente.

- Eu vou pagar.

- Claro que vai. Qualquer um pagaria se soubesse que tem um psicopata sádico no seu encalço. É pagar e rezar.

- Rezar pra quê?

- Pra que o amador não pegue seu dinheiro e, ainda assim, resolva fazer picadinho com o senhor, por diversão.

- A senhora está me assustando.


- Estou sendo honesta. Pense nos 10% como um seguro de vida. O senhor será visitado em domicílio, por um profissional bem vestido, dirigindo um veículo de porta-malas confortável.

- Por mim ele poderia vir de ônibus.

- Imagina! Aos melhores, o melhor. Um profissional estressado, com baixa autoestima poderia quebrar mais que seus dedos. Além disso, ônibus urbanos não têm porta-malas. O senhor não iria querer ser levado pro cativeiro amarrado no para-choque, não é?

- Cativeiro?

- Apenas até sua família quitar a dívida. Seu chá esfriou.

- A senhora acaba de me dar uma ideia. Parece que seria mais fácil eu sequestrar a senhora.

- Parece é?

- Seus filhos pagariam o que eu pedisse.

- Então vamos - disse a viúva, levantando-se e ajeitando o vestido.

- Pra onde? - perguntou Fernando, estupefato.

- Pro cativeiro.

Dona Rosália pegou a bolsa e virou-se para o espelho como quem verifica o penteado. Quando voltou a encarar Fernando, a agiota segurava uma pequena pistola negra, fosca e elegante, combinando perfeitamente com a bolsa de ir à missa.

Fernando saltou, derrubando a cadeira e fugiu. Dona Rosália, fiel aos ensinamentos do marido, foi até a janela e atirou. “Nunca saque uma arma se não estiver pronta pra usá-la”, dizia o falecido.

O tiro pegou de raspão. Dona Rosália desistiu da missa. Mandou a secretária marcar consulta urgente com o oftalmologista.

[Livro] Salem - Stephen King

Obvio que não iria faltar meu escritor preferido no nosso #MêsDoHalloween!

Só mesmo o Stephen King, para começar um livro pelo final sem dar Spoiler algum e quando o leitor chega à última página, corre para o começo porque tudo se encaixa só ali, na última linha da introdução.

Sinopse: Ambientado na cidadezinha de Jerusalem's Lot, na Nova Inglaterra, o romance conta a história de três forasteiros. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a acertar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Senhor Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade. Após a chegada desses forasteiros, fatos inexplicáveis vêm perturbar a rotina provinciana de Jerusalem's Lot: uma criança é encontrada morta; habitantes começam a desaparecer sem deixar vestígios ou sucumbem a uma estranha doença. A morte passa a envolver a pequena cidade com seu toque maléfico e Ben e Mark são obrigados a escolher o único caminho que resta aos sobreviventes da praga: fugir. Mas isso não será tão simples, os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem's Lot estão agora para sempre interligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas. 

Classificação
5*
Editora: Suma
Skoob

Esse foi o segundo livro que Stephen King escreveu na vida, lá em 1975. Nem dá para acreditar que o cara já tenha começado tão bem em sua carreira. Tudo bem que, quando você lê mais de 10 obras dele, percebe alguma diferença na escrita, mas isso aqui é genial demais para ser de um escritor principiante e só reforça o que sempre pensei: Stephen King já nasceu gênio e veio para esse mundo "prontinho da Silva".

Essa história começa realmente pelo final, com o fim da pequena cidade Jerusalem's Lot já sendo de conhecimento geral sua tragédia. E nas primeiras páginas você se sente completamente perdido, porque parece mesmo que está perdendo alguma coisa, mas calma, tudo se ajeita. King não te deixa muito tempo no escuro quando retrocede algum tempo e lhe mostra o panorama completo da trama.

E veja só, aqui temos outro escritor. Aliás, o primeiro escritor da carreira de King em suas obras. Veremos muito dessa profissão em suas histórias. Aqui, Ben Mears está de volta à sua cidade natal, pronto para resolver pendencias do passado que o deixou atormentado até então.

Ben está pronto para escrever um romance, baseado no seu medo de criança, aliás, o medo da maioria daquelas pessoas: A famosa Mansão Marsten, palco do mais aterrorizante boato de todos os tempos - Seu ultimo morador foi encontrado morto, enforcado em seu próprio quarto. Circunstancias suspeitas rodeiam essa morte e Ben sabe muito bem disso.

Ele espera, na verdade, superar esse trauma e seguir em frente, mas o que encontra é algo um pouco mais profundo. Logo de início tenta alugar a tal casa, que passou todos estes anos vazia, mas descobre que pouquíssimos dias antes, ela fora alugada para um homem que também está chegando à cidade com a intenção de abrir uma loja de antiguidades.

Como se trata de uma pequena cidade do interior, os boatos voam e logo toda a população está de orelhas em pé e olhos voltados tanto para a loja nova, quanto para os proprietários misteriosos da mansão, mas também para o Ben, o escritor - quase famoso - que passa a perambular pelas ruas.

E é aí que tudo muda drasticamente. Assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, sumiços de crianças e também de alguns mortos no necrotério se tornam comuns e o cenário vai ficando cada segundo mais assustador.


Lançado originalmente aqui no Brasil como o nome de A hora do Vampiro e com essa capa horrenda:

Salem foi resgatado pela Suma e acabou ganhando capa nova e voltou para seu nome original - que eu considero bem melhor - mas que, por anos, me fez pensar que esse livro se tratava de uma história sobre bruxas. Qual foi minha surpresa, descobrir que aqui, lidamos com o melhor tipo de vampiro que se pode existir. O tipo mal, perverso e sem sentimento algum. A criatura apavorante que todos temem e não algo sedutor e irresistível. (ps: aqui ele não brilha, juro).

Eu não vejo problema nessa gama de tipos de vampiros. Gosto da versatilidade que essa criatura recebeu na literatura, só quero ressaltar que aqui ele é daquele tipo clássico, que a maioria prefere.

Esse livro é instigante do começo ao fim. Os personagens são muito bem construídos e você sente empatia por vários no decorrer da história. Bem, se tratando de um livro do King, inevitavelmente, você irá chorar por alguma morte e eu senti várias aqui.

Os personagens do King parecem mesmo ter um vasto passado e é isso que dá a eles tanta profundidade. Um dia falo melhor disso aqui no blog, quero ler mais obras do autor para essa analise. Mas voltando a história: VAMPIROS! Como poderia dar errado? A melhor criatura da ficção, escrita pelo melhor escritor de terror?

É um livro impecável, com críticas bem feitas, assim como em todas as suas outras obras. Como sempre ele pega no pé da religião e também dos costumes das pessoas que vivem em cidades pequenas.

Em resumo, Salem é quase uma "boia salva-vidas" no mar de tantas ficções mal feitas que existem atualmente nas livrarias. É quase confortador poder sentir medo dessas criaturas noturnas, que não tem pretensão alguma além de matar. É um refresco para quem gosta de terror ao mesmo em tempo que um deleite para os que amam, acima de tudo, uma história muito bem contada.

Leiam!

As crianças e o terror

Você pode falar o que quiser, pode criticar que o cinema coloca atores jovens demais em filmes assustadores. Pode se debater com a ideia de que uma pequena criancinha precisou atuar ao lado de pessoas vestidas de demônio ou coisa pior... 

Fato é que, sempre que uma criança está envolvida em um projeto como esse a "parada fica séria" e o filme (livro, série ou qualquer coisa do gênero) se eleva a um nível bem maior de medo. 

Em resumo: Crianças são assustadoras! (até fora dos filmes, diga-se de passagem). 

Tenho alguns exemplos do quanto esses pestinhas podem tirar o telespectador do sério. Veja isso: 

O Cemitério (Stephen King) - O pequeno Gage tão meigo e fofo, depois que decide voltar do mundo dos mortos consegue retalhar o vizinho, aterrorizar o pai a mãe, o papagaio e eu! 


O Grito - Então pulamos para esse filme que foi terrivelmente fraco (pra mim), mas que teve sua salvação ao apresentar o adorável Toshio. Já ali na escada eu vi que aquela criança não era normal. Algo de muito errado morava ali (arrepiei aqui, sério). 


A colheita Maldita - E se uma criança não basta, vamos logo colocar um monte delas. 
A-PA-VO-RAN-TE. Algo naquela inocência velada delas me incomoda. 


A Mulher de Preto - Aqui a criança não é o problema. Bem, é sim, mas a mulher de preto é pior. A questão é que tudo que envolvia essa pequena criaturinha tinha uma atmosfera tão apavorante que... QUE MEDO! 


A Órfã - Que menina maldita. Sem mais! 


O bebê de Rosemary - O que? Não vale recém-nascido? Aposto que ele não te daria esse mole todo. 


O Iluminado - Quem, dotado de uma memória, irá esquecer aquelas gêmeas malditas querendo brincar PARA SEMPRE! 


Ah, chega né? Questão é que crianças são assustadoras desde sempre e tenho certeza que elas tiram de letra atuar nesses filmes. Sabe de uma coisa, acho até que elas gostam desse poder que exercem em nós.

[Conto] O Retrato - Nicolai Gogol

Eis que passeando pela literatura Russa, acabei conhecendo nomes que eu não sabia que existiam. Nicolai Gogol foi um desses, o que me fez pensar o quanto eu NÃO CONHEÇO quase nada fora dos clássicos mais vendidos.

Bem, posso encarar essa experiência de duas formas:

  1. Estou com falta de tempo nessa encarnação para conhecer, pelo menos, a primeira camada desses escritores.
  2. Tenho um leque infinito de possibilidades agora.

De qualquer forma, quero agradecer meu mais novo amigo, Marcos, engajado em assuntos russos que está me influenciando positivamente. Mas vamos à obra.

O retrato me chamou a atenção, primeiramente pela capa. Eu queria ler algo do autor, mas como não conhecia nada dele, foi assim a minha escolha. Não me julguem, no fim das contas esse fator foi importante e falarei mais dele no final da resenha.

O conto de apenas 66 páginas é dividido em duas partes, sendo a primeira a história de um jovem pintor chamado Tchartkov que entra em uma loja de antiguidades e se vê deslumbrado por um quadro.

Bem, deslumbrado não seria bem a palavra certa, pois o tal quadro exercia sobre ele certa inquietação, mas ao mesmo em tempo que isso o repudiava, algo na imagem o fazia não querer deixa-lo para trás. 

E, quando deu por si, já estava carregando o quadro para casa, mesmo estando ele à beira da falência. Sua carreira como pintor estava em baixa. Seu aluguel atrasado e as únicas coisas que ele pintava nos últimos tempos era a imagem de seu colega de quarto em seu próprio quarto bagunçado e miserável.

Como o próprio título diz, o retrato é o grande destaque desse conto. Senti aquela nostalgia de quem leu a, deliciosa, obra "O Retrato de Dorian Gray" e preciso dizer, as semelhanças são enormes.

Em uma rápida pesquisa vi que a criação das obras possuem 55 anos de diferença o que me faz pensar que meu querido Oscar Wild, talvez, tenha se inspirado nesse conto para escrever sua obra prima. (Isso é uma reflexão minha, posso estar errada).

Acontece que Tchartkov se vê assombrado por essa pintura desde o primeiro dia. Os olhos do homem retratado no quadro são tão vívidos que lhe causa pesadelos. Ele parece mesmo ser real ou algo mais do que uma pintura.

Arriscando-me a deixar escapar algum "spoiler" aqui, preciso contar que Tchartkov consegue uma grande soma de dinheiro, por causa do quadro (não vou contar como e nem quando) e resolve mudar sua vida completamente.


Tchartkov deixa a vaidade falar mais alto. Logo que coloca as mãos naquela quantia toda, corre e aluga um apartamento melhor, se abastece de roupas novas, toma os vinhos mais caros, come em restaurantes de alto nível e cria anúncios mentirosos se autopromovendo como um pintor primoroso da época.

Uma pequena observação: Tchartkov era realmente talentoso. Os retratos de seu antigo quarto e de seu antigo modelo, mesmo que pobres, eram dotados de alma e cores deslumbrantes, mas como ninguém o conhecia, levariam anos para ser levado a sério. Algo que com aquela soma de dinheiro seria possível caso ele pensasse de forma responsável. 

Mas a ganância de ser famoso falou mais alto e Tchartkov se rendeu ao modismo, se entregou aos retratos mais fáceis e fez seu nome na alta sociedade. Com o tempo e sem nenhum desafio para seu talento, acabou perdendo o tato e a imaginação que todo artista precisa ter e...

Vou parando por aqui!

Como mencionei acima, o conto é dividido em duas partes e a segunda se mostra impossibilitada de aparecer nessa resenha. Não quero desvendar nada do que vai acontecer, mas acredito que várias conspirações já estão se formando nas mentes sombrias que estão lendo esse texto.

Algumas terão lógica, mas quero ressaltar que vale a pena ler o conto e descobrir o que tem de errado com esse retrato.

Agora voltamos, rapidamente, à minha escolha pela capa: 

Não é de se espantar que eu tenha me rendido à leitura desse conto, uma vez que a capa é exatamente a imagem do tal retrato amaldiçoado! 

[Livro] O Bebê de Rosemary - Ira Levin

Mais um clássico lido, mas uma obra desmistificada para mim e mais uma prova, de que a mídia distorce tudo, com a ajuda do cinema, é claro! 

Sinopse: Rosemary Woodhouse e seu marido Guy, um ator que luta para se firmar na carreira, mudam-se para um dos endereços mais disputados de Nova York, o Bramford, um edifício antigo de ares vitorianos, habitado em sua maioria por moradores idosos e célebre por uma reputação algo macabra de incidentes misteriosos ao longo da história.
Sem demora, os novos vizinhos, Roman e Minnie Castevet, vêm dar boas-vindas aos Woodhouse. Apesar das reservas de Rosemary com relação a seus hábitos excêntricos e aos barulhos estranhos que ouve à noite, o casal idoso logo passa a ser uma presença constante em suas vidas, especialmente na de Guy.
Tudo parece ir de vento em popa. Guy consegue um ótimo papel na Broadway, e novas oportunidades não param de surgir para ele. Rosemary engravida, e os Castevets passam a tratá-la com atenção especial. Mas, à medida que a gestação evolui e parece deixá-la mais frágil, Rosemary começa a suspeitar que as coisas não são o que parecem ser... Em 1969, O bebê de Rosemary, fenômeno aclamado por público e crítica, foi adaptado para o cinema em uma produção que se tornou um clássico do terror, estrelada por Mia Farrow e Roman Polanski. Em 2014, a força da história sinistra de Rosemary e seu bebê chegou à TV americana, em uma elogiada minissérie estrelada por Zoe Saldana. 

Classificação
Editora: Nova Cultural

Eu não estou dizendo que essa obra não é um terror dos bons, mas sempre li coisas terríveis sobre ela, coisas que não encontrei nestas páginas, e não me lembrava de absolutamente nada do filme. Então resolvi fazer as coisas na minha ordem certa. Fui ler o livro e logo depois assisti ao filme novamente. 

O livro é excelente. Tem suspense do começo ao fim e a cada momento você cria especulações diferentes para cada personagem. O filme não fica atrás. Apesar de muito antigo, os atores conseguiram externar exatamente a personalidade de cada um, igualzinho ao livro. Até as falas são iguais e eu adoro isso! 


Publicado em 1967, acompanhamos a história de um casal comum em busca do famoso sonho americano. Rose é de uma família católica e sai de casa para estudar, à contragosto de todos. Sem muita ajuda e contrariando sua família, vai morar em uma república onde o vizinho se torna um tipo de pai para ela, seu nome é Hutch. 

Guy é seu marido que tenta se destacar como ator. Por isso mesmo eles sonham em se mudar para o aclamado Edifício Bradford que é a escolha de muitas pessoas famosas na época. E de fato, Brandford é um prédio incrível com apartamentos enormes, clássicos e uma decoração um tanto diferenciada em sua fachada. Ele realmente existe, dá uma olhada nisso: 


Então, finalmente eles conseguem um apartamento lá, mas Hutch não aprova muito a mudança. O amigo diz à Rose que muita coisa ruim acontece nesse prédio e fala sobre seitas macabras entre outras coisas. Conta histórias, verdadeiramente, horrendas sobre mulheres que comiam bebês e por aí vai, mas nada faz com que o casal mude de ideia. 

"Rosemary só se recordava das advertências de Hutch quando ia ao porão lavar roupa. O elevador de serviço, por si só, já era assustador: pequeno, automático, barulhento e sujeito a paradas súbitas e inexplicáveis. O porão era imenso, escuro e sinistro, percorrido por correntes de ar de origem misteriosa e ruídos insólitos. Encostadas nas paredes emboloradas, velhas geladeiras fora de uso pareciam grandes fantasmas brancos". 

Eles se mudam mesmo assim e adiantando um pouco as coisas para não contar muito da história, os dois conhecem, logo no início, o casal de idosos que moram ao lado. O encontro deles é em uma situação bem inusitada e logo de cara tudo parece suspeito. A personalidade deles, seus costumes, a forma com que agem e falam e até mesmo a curiosidade e amizade excessiva nos faz olhar o casal com desconfiança. 

Nesse meio tempo, Rose fica grávida - e essa também é uma das cenas mais malucas do mundo. A forma com que essa criança é concebida fez meu cérebro travar. É apavorante e fora da realidade completamente. Eu no lugar da Rose teria pirado li mesmo. Mas as circunstâncias ao redor dela a fazem seguir em frente. A constante intromissão dos vizinhos com todos aqueles mimos... Isso me incomodou demais durante a leitura. 


"— Sonhei que estavam me violentando. Não sei quem. Algo... desumano, bestial". 

Rose sente o mesmo - É quase uma cumplicidade entre protagonista e leitor - mas Guy os adora cada dia mais e por conta disso passam a se ver quase como uma família. Rose é tratada com muito carinho pela velha vizinha e a gravidez segue da forma mais esquisita do mundo. 

Não vou contar mais nada porque iria acabar com a graça da coisa toda. O que quero ressaltar é que o forte desse livro é o suspense que vai se acumulando em camadas ao redor de Rosemary. Suspense que não mostra nunca de forma clara quem está envolvido. Os vizinhos parecem culpados e inocentes ao mesmo tempo, você chega a temer ser injusto com eles em diversos momentos. O marido é igualmente controverso e isso faz a obra ficar deliciosa a cada folha. 

"Era um ator; como poderia alguém julgar quando um ator era sincero ou quando estava representando?". 

A gravidez dela é assustadora do começo ao fim e o desfecho... UAU!!!! 

Mas, não sei se é porque sou "cria" do Stephen King e já li tantos livros de suspense que nada mais me assusta ou se é porque fui com muita expectativa para essa obra, mas não achei TUDO isso que falam por aí (digo em termos de horror, porque a trama é excelente).

Como eu disse: nada é MOSTRADO de fato e tudo fica mais em nossa imaginação do que tudo (tirando o final que é mesmo muito bom). Mas acredito que essa foi mesmo a intenção do livro. Colocar essa dúvida em nossas cabeças até próximo do fim, quando tudo fica claro. 

É um livro interessantíssimo, com uma narrativa excelente. Um verdadeiro clássico, mas que não deveria ser tão temido como é, por aqueles que nunca o leram (ou assistiram). Digo isso, porque várias pessoas reagiram de forma espantosa quando me viram lendo essa obra: 

"Ai, que medo! Eu nunca leria esse livro. É uma história horrorosa". 

E não. Não é tanto assim. Claro que envolve temas que assustam, mas o lance da trama é o suspense denso em cada página. São as pequenas particularidades que te causam arrepios e tal. 

"As semanas das festas de fim de ano foram terríveis. As dores se tornavam cada vez mais fortes e contínuas — fazendo com que Rosemary chegasse a não poder se recordar de como tinha sido sua vida sem elas. Parou de reagir; deixou de mencioná-las ao dr. Sapirstein e procurou enganar a si mesma quanto a sua existência. Até agora, a dor tinha estado dentro dela; agora ela é que estava dentro da dor; fazia parte do ar que a cercava, era seu universo. Exausta e entorpecida, passou a dormir e a comer mais, a comer carne cada vez mais crua". 

Sabe aquela obra que INSINUA a coisa, mas nunca diz, claramente, se ela tem chifres? Então, aqui é igual. 

E vou dizer... A coisa aqui tem chifres (rs). 

Leiam e assistam. Vale a pena e não vai te matar de medo... Bem, eu acho.


[Conto] Onde o mal se esconde #MêsDoHalloween

Que tal começar o mês mais legal do ano com um conto de arrepiar? 
Vem conferir essa história, escrita pelo meu amigo Rodrigo Shepard, especialmente para o blog!




Onde o mal se esconde

Ela estava sentada na poltrona de sua sala, as mãos, sobre a mesa de vidro redonda, folheavam a agenda negra de brochura velha. O ambiente estava tomado pelas trevas, a não ser pela luz de algumas velas envolta de uma bola de cristal no centro da mesa. Com as mãos tremendo ela achou a folha que procurava e bateu o dedo em cima de uma anotação, “Exorcismo, seis da tarde”.

Madame Rose, tossiu e fitou o velho relógio de madeira na parede que batia com o horário da anotação. Em silencio ela ajeitou os óculos de grau no rosto, acendeu um grosso charuto cubano e começou a fumar. Aos 85 anos ela era uma médium muito requisitada, os negócios iam bem, mesmo em tempos de crise, quando assunto era recuperar o amor perdido, ou mesmo quebrar a macumba de algum invejoso, as pessoas não ligavam muito para o preço, mas sim para o resultado. E mesmo em um mercado com tantos charlatões, Madame Rose realmente tinha um dom, desde pequena ela podia ver e falar com espíritos, fossem bons ou não... Ela também tinha visões do passado e futuro. De início seu objetivo era apenas ajudar aqueles que buscavam respostas no sobrenatural, mas conforme a idade foi chegando e as contas de uma vida miserável aumentado, ela decidiu empreender o dom. 

De repente alguém bateu na porta. Com a voz rouca ela mandou que entrasse. 

Pai e filho adentraram de mãos dadas. A criança, um garotinho gordo de cabelos loiros e rosto sardento, sentou–se na poltrona de frente para a mesa da médium, dali ele mal podia enxergar a velha. O pai, um homem magro de meia idade e rosto abatido, ficou ao lado da cadeira.

– O dinheiro! – Disse Madame Rose para o homem.

Tremendo ele colocou uma nota de cem sobre a mesa e empurrou para que a velha pegasse.

– Para quem é o exorcismo? – Indagou Madame Rose, fitando os dois com curiosidade.

– Para o meu filho, George, ele foi possuído pelo diabo – Explicou o pai coçando a cabeça.

– Conte-me mais – Disse a velha tragando o charuto e soltando a fumaça pelas narinas.

– Quando ele está por perto, coisas acontecem... Pessoas se machucam... Descobri que ele estava matando animais da vizinhança, achei corpos destruídos, estripados, queimados... – Ele fez uma pausa buscando coragem para continuar – Céus! Ele crucificou um cachorro vivo... E semana passada tentou sufocar a irmãzinha, um bebe de apenas seis meses... Nos ajude por favor! – Suplicou.

A velha esmagou os charuto no cinzeiro e observou o garoto com mais atenção. Ele mal havia saído das fraldas, a pele do rosto era lisa como porcelana e brilhava ante a luz das velas. Os cabelos loiros caiam na frente dos olhos verdes, as bochechas eram roliças, laranjas debaixo da pele. Analisando com frieza e curiosidade, a velha buscou enxergar o mal por traz daquele rostinho infantil sem expressão. Sem sucesso ela esticou os braços flácidos pela mesa, e pediu que o pai aproximasse a criança. O homem assentiu e ergueu o filho que se queixou gemendo. Madame Rose envolveu o rosto do garoto com suas mãos e fechou os olhos, usando de seu dom ela adentrou na mente dele, procurando o diabo que estava controlando seu corpo como uma marionete. 

Em meio a um oceano de lembranças, pesadelos, sonhos e desejos, que se projetavam a em flashes que explodiam a seu redor, ela viu os atos profanos relatados pelo pai da criança. Mas ela viu detalhes que o pai não pode ver. Madame Rose viu o “durante”, ao invés do “depois”, todo o sangue, toda a carne e sofrimento dos animais mortos pelo garoto, viu também que ele já havia tentado matar a irmãzinha antes, mas foi impedido pelo acaso. Ela também podia ouvir. E durante tantos crimes abissais executados pelo pequenino, um som era comum. Um riso doentio, estridente de mais pura e sincera diversão permeava as lembranças.

Caminhando mais fundo na mente do garoto, Madame Rose podia sentir que estava chegando a fonte do mal. Sim, o diabo parecia estar próximo e a cada passo ela se afundava mais e mais naquele oceano de pensamento. Para que pudesse começar o exorcismo, era preciso descobrir o nome do diabo, pois só assim ela poderia confronta-lo e manda-lo de volta as brasas infernais.

Quando ficou totalmente submersa naquele oceano onírico, ela encontrou uma porta. Fim da linha. Ali era o final da mente do garoto, e aquela porta era a entrada para a alma dele, atrás dela o diabo estaria esperando. Madame Rose respirou fundo, pegou a maçaneta gelada e abriu a porta. 

La estava o mal, e assim que ambos trocaram olhares a velha médium ficou sem palavras, de início ela demorou para conceber. Receosa ela perguntou o nome do ser ali presente. Ao ouvir a resposta, um grito de pavor morreu na garganta da velha. Era horrível demais, profano e perverso para que ela aceitasse. De repente sua vista ficou turva e tudo escureceu, quando abriu os olhos estava de volta ao mundo físico, ainda segurando o rosto do pequenino.

Risos.

Ela forçou a vista ainda embaçada e fitou a criança. Por trás dos cabelos loiros, seus olhos verdes brilhavam, na boca um sorrido doentio e febril se projetava, os lábios estavam repuxados, os dentes de cima, amarelos, mordiam a parte inferior dos lábios que sangrava. A criança não parecia sentir dor, mas sim prazer, pois ria enquanto apertava a mordia.

Madame Rose soltou o rosto da criança e recuou assustada. Pois sabia que nada poderia fazer, seu dom era inútil contra aquele adversário. Não havia diabo naquele garoto, o que havia ali, era o próprio garoto...


Escrito por Rodrigo Soares Rodrigues da Silva
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...