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[Conto] SUBARASHII - Rodrigo Rodrigues

Você acredita no bicho papão? 
Bem, você deveria, pois ele é real assim como nós... Faz dez anos desde que eu o vi e mesmo depois de tanto tempo não consigo esquecer aquele rosto infernal com olhos amarelos que assombram as minhas noites de insônia.



Meu nome é Cesar, tenho 42 anos, vivo aqui nesse asilo para loucos insanos no meio de porra nenhuma. Escrevo esse texto com giz de cera no verso de um jornal velho, como uma confissão e um aviso. Minha desgraça veio quando Ana, minha esposa, retornou para casa depois de uma cirurgia no apêndice. Tudo parecia normal, mas hoje vejo como fui idiota. 

Meu filho, Lu, foi quem me alertou: “Papai, a mamãe não é mamãe, isso daí se parece com ela, mas só parece”. Eu ignorei o aviso, afinal o garoto tinha uma imaginação fértil como qualquer outro de seis anos, mas hoje penso que se eu tivesse prestado atenção, ele ainda poderia estar vivo...


Eu havia notado algumas diferenças em Ana, mas por algum motivo ignorei, hoje acredito que a coisa fez algo com a minha cabeça. Ana havia voltado com uma fome voraz, principalmente por carne vermelha. Certa vez a peguei comendo carne crua e quando ela me viu, lambeu o sangue dos lábios e me beijou antes que eu dissesse algo. 

Aquele beijo foi esquisito e me deixou sem ação. Hoje tenho certeza que a coisa me hipnotizou, como um predador diante da presa. O apetite de Ana ia além da fome por comida, ela estava louca por sexo! Fazíamos quase todos os dias, de manhã, à tarde, à noite e de madrugada. Cheguei a um ponto onde eu não aguentava mais e fugia dela matando tempo no trabalho e na rua... Deus! Hoje sei que aquilo com quem eu estava transando não era minha esposa, não era sequer humano.

Tudo teve fim um mês depois em uma madrugada de sábado, eu estava dormindo quando escutei um grito. Acordei assustado, olhei para o lado e a cama estava vazia. Calcei os chinelos e fui rumo ao quarto do Lu. Assim que sai no corredor quase vomitei, o ar estava tomado por um cheiro forte de podridão nauseante que mais parecia bosta de cavalo batida com leite azedo, algo difícil de esquecer. 

Segui caminhando com o coração aos pulos debaixo do peito sem saber o que diabos estava acontecendo, e quando parei na porta do quarto do meu filho, fui tomado de pavor e desespero.


O ambiente estava escuro, mas a luz da lua que vinha da janela aberta iluminava o suficiente. No chão estava o cadáver de Lu, a cabeça dele estava torcida para trás e seus olhos vidrados no vazio mórbido me encaravam. O corpo estava com a barriga aberta e sobre ele uma criatura se alimentava sugando as vísceras como se fossem macarrão ao molho italiano. 

coisa era grande, magra e velha, sua pele era cinza e de aspecto doente, o crânio murcho era alongado para trás e mais parecia uma genitália enrugada. O maxilar da criatura era grande e cheio de dentes pontudos semelhantes a estacas de aço. Olhei em volta e o quarto estava tomado por casulos pulsantes que emanavam calor, entre eles estava o cadáver de Ana que parecia uma roupa velha jogada de lado. 


Desesperado comecei a gritar e então a coisa parou de comer e olhou para mim. Seus olhos eram amarelos e brilhavam na escuridão como vagalumes, de repente ela abriu a boca e berrou: “SUUUUUBA-RA-SHIIIIIII!”. 

Confuso e apavorado sai correndo para o corredor, tropecei e desmaiei no chão. Quando acordei estava cercado de policiais que não acreditaram na minha história. O resto você consegue imaginar. Eles acharam os corpos, mas não viram nenhum casulo, muito menos a criatura.

E as vezes quando almoço ao lado de Napoleão e Mussolini, penso que talvez eu não passe de um louco assassino como todos dizem, mas eu sei o que eu vi naquela noite. Também sei que os casulos estavam cheios de crias da criatura, teriam elas o meu rosto? Espero jamais descobrir.

Escrito por Rodrigo Rodrigues – 21/10/2018.


Você já o conhece. Tem resenha do livro dele "O Pistoleiro da Meia-noite" aqui no blog. E se você se interessou e quer saber mais sobre o autor aqui estão todas suas redes e links para comprar seu livro:



Instagran 


[Livro] O Pistoleiro da Meia-Noite - Rodrigo Rodrigues

Tenho a maior satisfação do mundo hoje em abrir esse meu pequeno espaço para falar de um livro muito especial para mim, pois se trata do primeiro lançamento de um amigo meu e só por isso já valeu a pena ter voltado com o blog (mesmo de forma tão esporádica).



Sinopse: Frankie é um assassino de aluguel implacável que roda o país estrada afora matando desconhecidos a troco de dinheiro. No entanto, a quantia ganha é o que menos lhe interessa... A única coisa que o move é um forte impulso homicida, que ele controla por meio de protocolos rigorosos. Após quarenta anos de serviços prestados, seu corpo já não é mais o mesmo, os ossos doem e o coração velho está cansando demais. É então que a aposentadoria se torna uma realidade inevitável, mas a vontade de continuar na ativa e o medo de encarar a vida solitária deixam-lhe em conflito. Porém, quando um senador aparece em busca de vingança, o pistoleiro aceita o trabalho, planejando seu último desafio, só que, ao confrontar o alvo, um sujeito misterioso, Frankie se envolve em uma trama sobrenatural de consequências cruéis. 


Eu classificaria essa obra como uma novela, porque é maior do que um conto, mas bem menor do que um romance e, como novela, cumpre muito bem seu papel. (São 101 páginas bem intensas) 

Certamente o mundo é um hospício muito maior do que as pessoas imaginam. 

Os personagens são bem delineados, não tão aprofundados como em um romance, mas não deixa nada a desejar. A trama é simples, mas muito envolvente. Não há reviravoltas, surpresas ou sustos, você já prevê o que vem pela frente, mas é tudo descrito com muita habilidade. 

É como ler sobre uma lenda urbana que você já conhece, mas que foi tão bem escrita que empolga da mesma forma. 

O Recife do Diabo era um lugarejo esquecido, que regressava aos tempos antigos, quando os homens ainda balbuciavam palavras sem sentido e louvavam entidades ancestrais.

Bem, fui um pouco injusta quando disse que não havia surpresas: Bem no finalzinho do livro recebemos o gancho tão esperado e para alguns isso pode, sim, ser surpreendente - eu achei corajoso. Foi muito bem bolado, por sinal a forma com que o autor deixa claro que a história não acaba ali foi a parte que eu mais gostei: A motivação do protagonista. 


Dá forma que o Rodrigo Rodrigues colocou a trama, teremos continuações infinitas pela frente e eu adoraria ler cada uma delas. Ainda mais que as influências são claríssimas, Stephen King está presente em todas as páginas e isso tornou a leitura, pelo menos para mim, muito agradável e familiar. 

Não há crime aos olhos de Deus que não possa ser perdoado.

É o primeiro romance do autor e acho que já mostra um enorme potencial para crescer no cenário literário. Espero que a Editora Chiado não o perca de vista.









Rodrigo "Shepard" Rodrigues, queria te dizer que estou feliz da vida por ter você como amigo e muito orgulhosa com seu caminho. Espero que você tenha mais realizações como essa e que sejam tão boas quanto! Conte sempre comigo!






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[Conto] Onde o mal se esconde #MêsDoHalloween

Que tal começar o mês mais legal do ano com um conto de arrepiar? 
Vem conferir essa história, escrita pelo meu amigo Rodrigo Shepard, especialmente para o blog!




Onde o mal se esconde

Ela estava sentada na poltrona de sua sala, as mãos, sobre a mesa de vidro redonda, folheavam a agenda negra de brochura velha. O ambiente estava tomado pelas trevas, a não ser pela luz de algumas velas envolta de uma bola de cristal no centro da mesa. Com as mãos tremendo ela achou a folha que procurava e bateu o dedo em cima de uma anotação, “Exorcismo, seis da tarde”.

Madame Rose, tossiu e fitou o velho relógio de madeira na parede que batia com o horário da anotação. Em silencio ela ajeitou os óculos de grau no rosto, acendeu um grosso charuto cubano e começou a fumar. Aos 85 anos ela era uma médium muito requisitada, os negócios iam bem, mesmo em tempos de crise, quando assunto era recuperar o amor perdido, ou mesmo quebrar a macumba de algum invejoso, as pessoas não ligavam muito para o preço, mas sim para o resultado. E mesmo em um mercado com tantos charlatões, Madame Rose realmente tinha um dom, desde pequena ela podia ver e falar com espíritos, fossem bons ou não... Ela também tinha visões do passado e futuro. De início seu objetivo era apenas ajudar aqueles que buscavam respostas no sobrenatural, mas conforme a idade foi chegando e as contas de uma vida miserável aumentado, ela decidiu empreender o dom. 

De repente alguém bateu na porta. Com a voz rouca ela mandou que entrasse. 

Pai e filho adentraram de mãos dadas. A criança, um garotinho gordo de cabelos loiros e rosto sardento, sentou–se na poltrona de frente para a mesa da médium, dali ele mal podia enxergar a velha. O pai, um homem magro de meia idade e rosto abatido, ficou ao lado da cadeira.

– O dinheiro! – Disse Madame Rose para o homem.

Tremendo ele colocou uma nota de cem sobre a mesa e empurrou para que a velha pegasse.

– Para quem é o exorcismo? – Indagou Madame Rose, fitando os dois com curiosidade.

– Para o meu filho, George, ele foi possuído pelo diabo – Explicou o pai coçando a cabeça.

– Conte-me mais – Disse a velha tragando o charuto e soltando a fumaça pelas narinas.

– Quando ele está por perto, coisas acontecem... Pessoas se machucam... Descobri que ele estava matando animais da vizinhança, achei corpos destruídos, estripados, queimados... – Ele fez uma pausa buscando coragem para continuar – Céus! Ele crucificou um cachorro vivo... E semana passada tentou sufocar a irmãzinha, um bebe de apenas seis meses... Nos ajude por favor! – Suplicou.

A velha esmagou os charuto no cinzeiro e observou o garoto com mais atenção. Ele mal havia saído das fraldas, a pele do rosto era lisa como porcelana e brilhava ante a luz das velas. Os cabelos loiros caiam na frente dos olhos verdes, as bochechas eram roliças, laranjas debaixo da pele. Analisando com frieza e curiosidade, a velha buscou enxergar o mal por traz daquele rostinho infantil sem expressão. Sem sucesso ela esticou os braços flácidos pela mesa, e pediu que o pai aproximasse a criança. O homem assentiu e ergueu o filho que se queixou gemendo. Madame Rose envolveu o rosto do garoto com suas mãos e fechou os olhos, usando de seu dom ela adentrou na mente dele, procurando o diabo que estava controlando seu corpo como uma marionete. 

Em meio a um oceano de lembranças, pesadelos, sonhos e desejos, que se projetavam a em flashes que explodiam a seu redor, ela viu os atos profanos relatados pelo pai da criança. Mas ela viu detalhes que o pai não pode ver. Madame Rose viu o “durante”, ao invés do “depois”, todo o sangue, toda a carne e sofrimento dos animais mortos pelo garoto, viu também que ele já havia tentado matar a irmãzinha antes, mas foi impedido pelo acaso. Ela também podia ouvir. E durante tantos crimes abissais executados pelo pequenino, um som era comum. Um riso doentio, estridente de mais pura e sincera diversão permeava as lembranças.

Caminhando mais fundo na mente do garoto, Madame Rose podia sentir que estava chegando a fonte do mal. Sim, o diabo parecia estar próximo e a cada passo ela se afundava mais e mais naquele oceano de pensamento. Para que pudesse começar o exorcismo, era preciso descobrir o nome do diabo, pois só assim ela poderia confronta-lo e manda-lo de volta as brasas infernais.

Quando ficou totalmente submersa naquele oceano onírico, ela encontrou uma porta. Fim da linha. Ali era o final da mente do garoto, e aquela porta era a entrada para a alma dele, atrás dela o diabo estaria esperando. Madame Rose respirou fundo, pegou a maçaneta gelada e abriu a porta. 

La estava o mal, e assim que ambos trocaram olhares a velha médium ficou sem palavras, de início ela demorou para conceber. Receosa ela perguntou o nome do ser ali presente. Ao ouvir a resposta, um grito de pavor morreu na garganta da velha. Era horrível demais, profano e perverso para que ela aceitasse. De repente sua vista ficou turva e tudo escureceu, quando abriu os olhos estava de volta ao mundo físico, ainda segurando o rosto do pequenino.

Risos.

Ela forçou a vista ainda embaçada e fitou a criança. Por trás dos cabelos loiros, seus olhos verdes brilhavam, na boca um sorrido doentio e febril se projetava, os lábios estavam repuxados, os dentes de cima, amarelos, mordiam a parte inferior dos lábios que sangrava. A criança não parecia sentir dor, mas sim prazer, pois ria enquanto apertava a mordia.

Madame Rose soltou o rosto da criança e recuou assustada. Pois sabia que nada poderia fazer, seu dom era inútil contra aquele adversário. Não havia diabo naquele garoto, o que havia ali, era o próprio garoto...


Escrito por Rodrigo Soares Rodrigues da Silva

[Conto] O Cão - Rodrigo Shepard


Seus bofes estavam quase saindo pra fora quando ele parou de correr, o coração galopava forte no peito e fazia seus olhos pulsarem nas orbitas. Atrás dele estava o cadáver, despedaçado, prensado no asfalto quente. O ônibus tinha passado por cima do animal, uma das rodas dianteiras acertou a cabeça, transformando o crânio no puzzle demoníaco, o corpo fora partido ao meio, trabalho quase cirúrgico da roda traseira do automóvel. 

Já estava acostumado a fugir dele, sempre quando deixava a correspondência na casa dos Nogueira, uma família estranha de reputação ruim no bairro, o animal avançava no portão, latindo como se não houvesse amanhã, exibindo as presas afiadas, sedentas para arrancar um pedaço de sua carne. Quase sempre ele conseguia escapar de sua casa e o perseguia, mas dessa vez, a última vez, o cachorro dos Nogueira encontrou um predador maior do que ele. Um dinossauro de aço que o esmagou no cimento numa fração de segundos.

Algumas pessoas olharam assustadas para o cadáver do animal, outras gritaram para o motorista do ônibus que seguiu caminho, sem se quer parar no farol. Paulo teve vontade de para-lo também, não para lhe agredir, mas sim para agradecê-lo de todo o coração. Aquele cachorro transformava seus dias de trabalho num verdadeiro martírio, que o fez pensar em pedir demissão inúmeras vezes. 

Contudo, agora ele podia respirar aliviado. Podia ir trabalhar no dia seguinte sem ter que se preocupar com aquele maldito animal, isso o fez abrir um sorriso largo e sincero “Bem feito, vai latir no inferno agora, seu animal burro”, pensou. 

Mas foi nesse instante que, entre os curiosos do outro lado da rua, apareceu um dos donos do animal: Ivo Nogueira, um velho cego do olho esquerdo que usava uma bengala de marfim. Ele encarou o cadáver do animal com tristeza, caminhou até ele, caiu no chão de joelhos e começou a juntar os pedaços com as mãos nuas, sem pudor algum, fazendo as pessoas ao redor gemer de nojo e se afastar, alguns carros buzinaram querendo passar. 

Paulo olhou com desprezo àquela cena, ainda sorrindo, e sentiu um calafrio mórbido percorrer sua espinha quando notou que o velho o encarava com um olhar sinistro e percebeu com espanto ainda maior que, com a boca tremula, ele proferia palavras sem emitir som algum. Isso o fez se sentir mal e já bem apavorado, deu as costas à cena e partiu. 

Já de noite, quando chegou a casa, um apartamento pequeno no subúrbio, que ele dividia apenas com a lembrança da ex-mulher, Paulo tirou o uniforme e foi tomar banho, dentro de si, ainda carregava uma sensação ruim que lhe dava um frio na barriga. A imagem do cachorro morto ainda estava fresca em sua mente, fixada como um papel de parede, mas o pior era a lembrança do olhar do velho Ivo Nogueira. Era como se o sujeito ainda estive ali, na sua frente olhando para ele, surrando algo..

As pessoas do bairro diziam que os Nogueiras faziam trabalhos espirituais e que mexiam com magia negra, coisa pesada. Ainda pensando nisso Paulo tentou jantar, serviu-se de uma lasanha de carne que ele esquentou no micro-ondas, mas parou de comer na primeira garfada. O paladar rejeitou o alimento, dizendo ao celebro que aquilo não era massa com molho e carne moída, mas sim sobras de um cachorro morto, aquecido no asfalto numa tarde de verão. 

Enojado, Paulo correu até o banheiro e vomitou. Sentia suas próprias tripas se contorcer e já sem forças, jogou-se no sofá e ligou a TV, mas acabou adormecendo ali mesmo. Na própria mente em um sono profundo, algo lhe assombrou os sonhos, era um latido bestial e ensurdecedor que o fez acordar ao pulos.

Demorou alguns minutos para se acalmar. Quando abriu os olhos a TV estava na estática, chiando como um pesadelo, e assim que Paulo fitou o relógio na parede, viu que ainda era três da madrugada. Estava suado, tremendo, e um tanto assustado, mas o cansaço o consumia, então Paulo desligou o aparelho e voltou a dormir ali mesmo, mas assim que começou a sonhar o som do latido voltou, ainda mais alto do que a primeira vez e mais forte.

Pela segunda vez naquela noite, Paulo abriu os olhos, assustado, mas dessa vez, o som não parou. Continuava forte, alto e claro, foi então que soube: era o cão dos Nogueira, renascido do inferno. Desesperado o carteiro olhou em volta a procura do animal, mas nada viu. Desconfiado revistou a casa, porém não obteve sucesso, saiu e procurou no quintal e ali percebeu que o latido brotava de outro lugar, de sua mente, nos confins de seu pensamento. 

Era algo terrível que fazia sua cabeça doer, cozinhando seus miolos dentro do crânio. Aquilo lhe tirou o sono por completo e o deixou ainda mais transtornado. . No dia seguinte não foi trabalhar, como poderia? O latido gutural que brotava de sua cabeça não dava trégua e o impedia de se concertar em qualquer coisa. Quando fechava os olhos via o velho Ivo, olhando pra ele, sussurrando palavras desconhecidas, de puro ódio e rancor. 

Além disso tudo, descobriu outra coisa: tudo o que punha na boca tinha gosto de carne crua aquecida. Paulo não podia mais comer e ao sair de casa na procura de um médico mais uma surpresa, por onde fosse tinha a estranha sensação de estar sendo seguido, até mesmo sua sombra estava estranha, às vezes curvava-se de quarto e saia correndo diante de seus olhos. 

Conforme os dias foram passando às coisas só pioravam, Paulo ouvia, enxergava e sentia coisas que só ele presenciava. Estava enlouquecendo, e emagrecendo também. Parou de ir ao trabalho e de ver as pessoas, isolou-se em casa e somente no sétimo dia depois da morte do cão dos Nogueira, encontrou a solução para seus problemas, ela estava dentro de um revolver calibre 38 que ele colocou na boca e puxou o gatilho. 

Alivio.

Depois de morto ele viu o próprio cadáver no chão da sala de casa, sentia-se estranho, podia atravessar paredes e flutuar acima do chão, no entanto não sentia frio, calor nem fome e o melhor, não ouvia mais o latido do cachorro. Saiu de casa atravessando a porta, como se fosse uma cortina de agua, perguntou-se o que viria a seguir, ao sair na rua, pois era novato nesse lance de vida-a-pôs a morte. 

Procurou em algum lugar uma escada para o céu, ou mesmo um buraco para o inferno. Sem sucesso decidiu que agora poderia passar o tempo assombrando o velho Ivo Nogueira, o desgraçado que o havia amaldiçoado. Faria isso até que o velho morresse do coração, mas quando chegou ao portão da casa dele, Paulo estancou no chão, pois viu ali um velho amigo, que esperava por ele, com um sorriso demoníaco nos lábios, babando enquanto rosnava. 

Era o cão dos Nogueira, morto, assim como ele. Paulo gemeu de pavor e fugiu quando o animal atravessou o portão, eles correram pelo ar, sem que ninguém lhes desse atenção. Assim que viu o animal atravessar um ônibus sem se machucar, o carteiro chorou e se amaldiçoou, ali estava o inferno, um ciclo vicioso que transcendeu a morte e duraria até o fim dos tempos, ligando carteiro e cachorro para todo o sempre.

Escrito por Rodrigo S. Rodrigues - 08/09/2015



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